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![]() Digressões acerca de O idiota de Dostoiévski e outros subtemas paralelos Na Galeria Uffizi, de Firenze/Florença, você poderá extasiar-se diante da Medusa, ou do Sacrifício de Isaac, dois quadros de Caravaggio. São fabulosos. O primeiro retrata tema bíblico no qual o pai de Isaac, ao provar absoluta fidelidade ao Demiurgo, proprõe-se a cometer filicídio, cujo ato não se consuma. A cena é dramática. O segundo quadro resgata a figura da górgona cujos fios de cabelo eram serpentes amedrontadoras. Perseu mandou gravar em seu escudo a figura de Medusa cujo olhar petrificava os adversários postados à sua frente. Até mesmo na política algo provinciana de CTV não faltam a figura do pai demiúrgico que o tempo todo reclama de seus pares sacrifícios e atos de fidelidade cheios de dor e humilhação, mas também a degola do adversário ou, como no episódio da mitologia grega, a transformação dos inimigos em pedra. Bobeou, vai para o patíbulo. Em Firenze, nasceram e viveram, dentre outros, Dante, Boccaccio, Botticelli, Machiavelli e Michelangelo que, felizmente, não precisaram freqüentar a biblioteca pública da Rua Maranhão nem o MIS da Avenida São Domingos. Em Firenze, entre 1867 e 1868, por quatro meses, Dostoiévski redigiu O idiota, inspirado no Dom Quixote de Cervantes. O idiota do grande escritor russo é um pouco como o idiotés dos gregos, quer dizer, um homem bom, porém singelo de quem muitos fazem chacota. O idiotés helênico, mais tarde, deu lugar ao filósofo, muitas vezes confundido com um lunático. O príncipe Míchkin, epilético, é o idiota de Dostoievski. Todo o seu conhecimento do mundo assenta-se no senso comum: vai chover, não vai chover, as coisas são assim e não assado porque o chefe falou etc. Na figura de Rogójin, Dostoievski criou o antagonista de Míchkin. Rogójin é bilioso, cruel, carrasco de seus pares. Na piada do mexicano, ele é o que pergunta ao adversário "Como te llamas? e, antes que o desgraçado responda, ele infla o peito, fulmina com um tiro o inimigo e diz "Llamavas!"Se vivesse hoje, Míchkin teria sido o autor da frase "Manda quem pode, obedece quem tem juízo". Não quer isso dizer, no entanto, que um dia Míchkin, ao acordar com a avó atrás do toco, não venha a botar a boca no trombone!Toda criatura, um dia, rebela-se contra o criador.
Secretário, chefe de gabinete & outras criaturas próximas do poder Durante a campanha eleitoral de retorno à administração, José Antônio Borelli prometeu, no palanque e no Café da Esquina, que, se fosse reeleito, botaria abaixo a larga e pesada porta de madeira do prédio da prefeitura da Rua Pará esquina da Paraíba. Reeleito, Borelli cumpriu a promessa.O talhe anarquista de JAB era algo congenial ou de família: em Taquaritinga ele sentiu no aperto de mão os calos dos emigrantes meridionais. É fácil entender o sentido histriônico do compromisso: ele era a criatura simples que se sentia bem ao receber o povão de braços abertos, sem protocolo ou maneirismos. A massa o chamava de Nego, naquela acepção com que a mulata trata de meu nego o branco por quem se apaixonou. O povo quer sentir-se próximo do poder, ainda que isso seja, de fato, aspiração que não se cumpre na prática. Aliás, a respeito de povo, foram os italianos que inventaram o conceito de massa com Nicolau Macchiavelli. No tempo de Borelli, os secretários eram tão somente secretários, isto é, participantes da administração como auxiliares, sem qualquer significado extra. Não havia neles um plus ultra ou um surplus. Nos dias de sanha e fome de poder que correm, voltamos ao universo dramático de Shakespeare, em que as pessoas próximas e ao mesmo tempo um pouco distantes do poder real maquinam dia após dia para chegar lá, ou então , por bom tempo, são preparadas para a investidura assim que o rei coroado deixar o cargo, por morte, velhice ou insanidade. Stálin foi secretário do partido comunista e a função era indicativa de que o ocupante estava a um passo do poder. Por um triz Churchill não chegou lá. Alguns secretários são como os religiosos praticantes de caminhada que, do começo ao fim do dia, preparam-se para o supremo momento de investidura ou perda de suor . Churchill era anfíbio ou ciclotímico, ou então, quem sabe, um precoce portador de distúrbio bipolar: passava grande parte das manhãs deitado na cama, tomava vários banhos ao longo do dia, fumava um charuto atrás do outro e bebia várias doses de uísque. Quincy Adams, o norte-americano, não era mitomaníaco, mas um genial criador de projetos de interesse público. Churchill ficou famoso e, há uns 60 anos, não havia no mundo criança que não o reconhecesse pelo chapéu coco, o V da vitória ou o charuto. No entanto, foi ele responsável pelo estrondoso desastre de Gallipoli nos Dardanelos contra Ataturk, além de ter considerado a possibilidade de usar gás venenoso contra civis alemães. Ricardo Hummel, paredes meias com o Sr. Prefeito, talvez venha a ser lançado como sucessor da atual administração.Há cinco anos, ele exerce, de fato, as funções de chefe de gabinete e sabe tudo ou quase tudo do poder, a cidade & seus habitantes. Quieto, no mais das vezes, e perspicaz. Lembra, às vezes, um enxadrista de mente insondável. Ele e Winston Churchill tinham em comum o gosto por avião. Hummel jamais nos disse qual o seu entendimento de política, ao contrário do britânico que assim se exprimiu: “A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes”. Quanto às mortes, isto é coisa para um espírita tirar de letra.
Prosa caipira Asturdia, u óme apiô dum turdio com cara de abestaiado. Raspô a bota imbarreada no limpapé de tampinha de garrafa, oiô mei de insgueio e adentrô. Pensei num fidumaégua lá de Vargim inguar a esse dito cujo. Fedia cachaça e a inhaca era de vomitá o armoço donti. Garrei a maginá que aí vinha forfé.Forfé é qui não farta nesse fimdimundu. O omão era parrudo e fui logo desembuchando: Tá quainahora de fechá o buteco e o mé acabô.Também não tenho mé pra disconhecidu fedorento. O zaroião nem triscô o zóio bão. Fiquei desenxavido e pensei: agora levo os corno pra véia conferi.A veia fica cum medo qui eu leve sova de valentão Disse: abanque-se, seu ome sem nome nem sobrenome. Ficô ele de coqui um tempão, caiu aguacero desses que o pai chamava de dilunvo, porca grunhiu no terrero e a véia veio de mansinho, aventar na mão calosa e berrô bem arto, pruquê to surdo como porta: Juanim, quiqui si passa? Arrespondi: chegô esse parrudo, mas não sei quiqué, não tugiu nem mugiu, ficô inguar passarinho na muda. Aí o grandão tamanho de cumiera se alevantô, botô a mãozona na cartuchera e desembestô: eu só quero a sua fia Zurmira de zóio melado e boca grande. Muierão cheia de prenda e encanto. Não vou maiá meu sobro antis do ajuntamento.Eu e a véia trememo como vara verde, mijei na carça de brim amarelo, a véia encoieuce tudinha atrais do barcão, começou a rezá o crendospadre e eu me fiz de tonto: cuméquié, seu ome? Quero sua fia, seo carniça, a Zurmirinha, luz na treva que deixa lamparina acesa na rabera. Chispa, arrisquei. Num sarto de onça pintada, ele grudô meu pescoço, ergueu mão peluda no dorso, mas Zurmira gritô:deixa o pai, Vardomiro.Mió si entendê com o pai. Antisdonte pensei em vancê e logo botei na oreia uns pingo do perfume que você ganhô na quermessa. A fia tá de chico, gritô a mãe.Isso passa, tudo passa, só o meu benquerê por essa muié é qui não passa. Oncotava quando bebi até caí nas ribancera só pensando nocê? Botei de doido a cabeça com chapéu e tudo denduforno pra curá o mar de pinga, saí locão e fui campiá mula-sem-cabeça no pasto longe.Vortei zambeta quatruhora dispois. Já si lavô, Zurmira?Bota a saia rendada.Arruma os pano e vamo pra casa. O chico passa e nóis vai fazê fiarada de lotá pondiônus na vila.Vixe! Uns oito. Compro carro de boi novinho infoia pra passiá os mininu. Vão crescê sadio e catiça arguma vai pegá nelis. O mundo só tem começo, nem tem nem fim. O mundo fica treis tiro de cartuchera dispois da casa de nhô Raymundo com ipsilone que sabe lê e inscrevê. [Dedico esta narrativa meio singela à memória de meu primo Ado Benatti, poeta da musa cabocla nos anos 50s e 60s. Ado não era um caipira autêntico. Homem de cidade, no entanto, soube trabalhar à maneira caipira temas como o ciúme que, sem dúvida, estão presentes tanto na zona rural quanto na cidade.]
Catanduva e os novos enciclopedistas Em 2004, Alanis Morissette recebeu o Juno awards, versão canadense do Grammy. Anunciado seu nome, ela ficou pelada. Nessas circunstâncias, a nudez é pura ironia e Ironic/Irônico é título duma das músicas da cantora canadense. Diz a letra: “Mr. Play it safe was afraid to fly/He packed his suitcase and kissed his kids good-bye/he waited his whole damn life to take that flight/and was the plane crashed down he thought/”Well, isn’t this nice.”/ and isn’t it ironic … don’t you think? Em Português: O sr. Precavido tinha medo de voar/ele arrumou a mala e deu um beijo de despedida nos filhos/Esperou a vida toda para fazer aquele vôo/ e, enquanto o avião caía, ele pensou/”Bem, isso não é bom ...”/Isso é irônico ... Você não acha? O destino, ou seja o que for, escreveu para a criatura o mais indesejado dos finais. Ele não pôde evitar o trágico deslinde por ter acalentado a vida toda fazê-lo. Do mesmo modo que o Destino aprontou com a personagem de Alanis Morissette, o dia-a-dia de Affonso Macchione tem sido marcado por aquilo que ele não acalentou, quer dizer, que lhe respondam, com ironia, aos seus bons propósitos, já que ir para a prefeitura foi o que ele mais desejou na vida, nos últimos tempos. Fui professor de Língua portuguesa e Literatura do Sr. Prefeito, lecionei para os seus três filhos e para os filhos de seus irmãos, trabalhei na Coordenadoria de Cultura por dois anos, assim como minha mulher, por três anos e meio, dirigiu o postão da Rua Pará, além de ter cuidado dos serviços médicos no trato de tuberculosos e hansenianos. Os colegas que comigo se compuseram e os 13 mil visitantes das mostras sobre a velha Catanduva, assim como o corpo auxiliar do postão e as pessoas que por ali passaram, sabem que nosso desempenho foi exemplar. No entanto, estamos fora do barco que segue em frente porque esse é seu destino. O postão, reformado e pintado, descaracterizou-se por completo e, em vez de continuar sendo o nosso HC, virou campo de exercício da incerta medicina terceirizada, enquanto que a Estação cultura continua a confundir adestramento para habilitações artísticas, ou estratégias de sobrevivência doméstica, com Cultura, que implica numa reeducação dos sentidos. Tão logo instalou-se na prefeitura, em 2005, Macchione foi ironicamente presenteado com um blog maroto intitulado “Eu odeio Affonso Macchione” e, há pouco, no vastíssimo oceano da web, com um artigo sobre a cidade na Desciclopédia. O artigo apresenta-se com altos e baixos e, nos melhores momentos, desnuda a cidade exibindo-a como a contrafação do que gostaríamos que fosse. A Desciclopédia é a antítese da fabulosa Enciclopédia dos franceses revolucionários de 1789, cujos verbetes, críticos e informativos, preparavam os franceses para o momento em que o mundo seria posto de ponta cabeça. O verbete Catanduva da Desciclopédia é o mundo irônico de ponta cabeça, já que, do jeito que as coisas vão, nada carece de mudança.
Prezado Arthur, Como passei dos 18 e me iniciei em jornal há décadas, para mim jornal significou sempre papel, tinta, informação, crítica e entretenimento. Quando trabalhei nO Estadão da Major Quedinho deixava a sala dos revisores com as mãos sujas de tinta. Um dia, bem moço, fui para o RJ para trabalhar no Correio da Manhã. A ditadura instalou-se no poder, a condessa proprietária do jornal exilou-se na Europa e eu fiquei a ver navios. O cheiro de tinta continuava impregnado nas narinas. Em São José do Rio Pardo, conheci o velho Paschoal Artese, socialista amigo de Euclides da Cunha e editor do Jornal do Poste. Ele era a redação, o repórter, o ilustrador e tudo o mais que a ocasião exigisse. Ficava de ouvido colado a um velho rádio e, quando o fato quente era anunciado, ele o ouvia, ia para a Remington e encomendava a um menino que saísse pela cidade para colar nos postes de madeira a folha de jornal.Passandoalimpo não tem cheiro de tinta,mas de veracidade, coragem, bom gosto e faro para distinguir o fato político da fofoca anódina. Nesta idade senescente em que me encontro, sinto-me alegre e rejuvenescido por fazer parte dessa fabulosa equipe de brancaleones que insistem em ver no poder local aquilo que ele não pôde dar.
Tinturas políticas Sábado, 9, talvez venha a ser lembrado, não propriamente como o dia da refeição de Geraldo Alckmin, Affonso Macchione e Roberto Cacciari no Santa Gula, mas como encontro discreto de companheiros interessados em seguir viagem juntos. Se esse primeiro raciocínio estiver correto, o ágape frugal serviu de pretexto para que a próxima campanha política da cidade começasse a movimentar-se a fim de deixar o ramal ferroviário de espera e ganhar velocidade. O visitante é professor emérito de política. Todavia, há no encontro e nas três criaturas importantes questões como o tom e o subtom da cor política , independentemente do partido de filiação. Os três são políticos ambiciosos, os três iriam sentir-se asfixiados à esquerda, os três apóiam movimentos empresariais de cúpula, os três têm do poder aquilo que Norberto Bobbio chama de visão verticalizada , quer dizer, o exercício da administração faz-se de cima para baixo e nele jamais haverá lugar para a discussão dos atos de governo por uma assembléia popular. As coisas são como são e não como gostaríamos que fossem. Ao se dizer criador de novo método de administrar, Affonso Macchione não perdeu aula particular de política até mesmo no traslado do ônibus de turismo da prefeitura à obra. Talvez ele não tolere que lhe digam o que teria ele de fazer em tal ou qual circunstância ,e esse é, de fato, um gesto estranho à formação da melhor opinião política. Fator quase anódino de aproximação desses companheiros à mesa é que, ano a mais, ano a menos, têm eles a mesma idade, o que implica em dizer que nos tempos da ditadura de 64 frequentaram o colégio, armazenaram informações sobre o grande descarrilamento do estamento militar, prisões, tortura, execuções etc. Seja como for, a memória desses dias neles não se articula nem mesmo como metáfora em seus discursos à mesa ou no palanque. São realistas. Alckmin, segundo alguns fuçadores na origem de nomes, procede de Al-kemyn e quer dizer “o Químico”;Macchione procede de “máquina” e Cacciari é aquele que vai à caça. Há neles, portanto, uma urgência em fazer e fazer ao modo de cada um. Pesam sobre o currículo político do ex-governador dúvidas e incertezas que a leitura atenta da página em seu nome no Wikipédia esclarece. A menor delas, talvez, é ter dado a uma rua o nome do fundador do grupo fascista Opus Dei, Josemaria Escrivá de Balaguer. Cacciari e Macchione são robustos avatares de Augusto Gimenez, José Antônio Boso e Carlos Machado que, na revista A feiticeira, ocuparam a trincheira da direita esclarecida de fundamentação empresarial.
Noel Rosa, entre nós
Filho de marceneiro da velha Estrada de Ferro Paulista, o Dr. Attílio Cardarelli Cypriano vestia-se com a elegância dum filho de meridionais migrados da Itália para Campinas. Mais tarde, formado e, depois, casado, iniciou-se em Araras e, por fim, veio a atracar na Catanduva de meados dos anos 40s. Construiu sobrado na Rua Maranhão, 416, ao lado da Pensão Estrela, onde se abrigavam casa e consultório. Tanto os móveis da residência quanto os do consultório foram desenhados por Dona Altina, sua mulher e ex-aluna de desenho do pai do professor Paul Edward Fort, no Colégio Culto à Ciência/Campinas, SP. À esquerda do arco árabe de entrada, na parede externa da sala de espera, havia uma placa: Dr. Attílio Cardarelli Cypriano, médico, operador, parteiro. Parteiro? Um mundo desaparecido. O consultório, como disse Paul Virilio, era o cômodo à parte (do mesmo modo que o médico separava/trazia à luz ou partejava a criança), mero apêndice ou um quarto a mais da moradia, cujas divisões ou contigüidades, ao isolar e proteger a mulher e os filhos do médico, protegiam também suas identidades sem roubar-lhes, por isso, o direito natural de se aproximar do paciente e seu acompanhante, saber de onde procediam etc. O médico era igual a nós e diferente de nós por seu saber sobre os nossos corpos com seus mistérios, ou sobre como soava a música pulmonar de tango argentino do poema de Manuel Bandeira. Uma vez iniciadas, as relações com o paciente e os colaterais poderiam prolongar-se por muitos anos. Quando o doente não podia pagar-lhe com moeda, no retorno trazia-lhe ovos, frutas, um quarto de leitoa. Nos anos 40s, ainda permanecíamos rurais! Como escreveu Franz Kafka em "Um médico rural": "A mãe está em pé ao lado da cama e me atrai com um sinal; eu atendo e, enquanto um cavalo relincha forte para o teto, coloco a cabeça no peito do jovem, que se arrepia ao toque da minha barba úmida. Confirma-se o que sei: o rapaz está são, a circulação do sangue funciona um pouco mal, ele está encharcado de café dado pela mãe ansiosa, mas são: o melhor seria tirá-lo com um tranco da cama. Não sou reformador do mundo, por isso deixo-o deitado. Sou médico contratado pelo distrito e cumpro o meu dever até o limite, até o ponto em que isso quase se torna um excesso. Mal pago, sou no entanto generoso e solícito em relação aos pobres". Nosso corpo era por ele limpo, curado, purgado de quase todos os males, refratário, porém, ao exílio asséptico no novo consultório/escritório/palacete, para onde o doente, em nossos dias, se desloca de automóvel, ou é conduzido pela família que o vê como máquina disfuncional descartável. Por isso é que a nova classe média urbana foge ao nosocômio público, cuja proximidade compulsória de corpos, médicos, auxiliares e criaturas precárias aumenta-lhe o nível de hipocondria, bem como a certeza de que vivemos num vale de lágrimas. "O Brasil é um vasto hospital." No novo ambiente, refrigerado e virtual, do escritório/consultório, a família camufla-se, evita derramar-se em dores e preocupações e se protege de seu próprio doente, como ao morto recomenda-se ser velado longe do living, na fria e distante necrópole. Por força da desmemória marota ou das disjunções burocráticas, Attílio Cardarelli Cypriano anda meio deslembrado, mas, sem ele, a FAMECA (9/2/1951) talvez não tivesse se instalado no atual prédio do Colégio Catanduva, para depois transferir-se para o Hospital Emílio Carlos. O que fazer? Mao-Tsé Tung, na China, ou os norte-americanos, na Segunda guerra, em Paris, mandaram apagar das placas de rua o nome dos desafetos, enquanto nós nem ao menos mandamos inscrever nelas os melhores nomes. No nosso imaginário, apagar nomes e sumir-se com identidades equivalem a deletar (do verbo deleo, do Latim, equivalente a destruir) criaturas de carne e osso. Agimos um pouco como as crianças do videogame. O Dr. Attílio estudou no Rio de Janeiro com Noel Rosa, em 1931, no primeiro ano da atual Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, antiga Escola Médica da Praia Vermelha. Boêmia e cultura médica casavam-se com naturalidade noutros tempos. Noel também foi elegante como caía bem a um boêmio congenial, cujo cancioneiro de elevadíssima qualidade polarizou o morro com o asfalto, quando ambos puderam conhecer geografias pacíficas. Não havia balas perdidas, achadas ou desencontradas, mas, quando muito, talhe de navalha passível de sutura. O compositor foi garoto de classe média, estudou no Colégio São Bento e se abespinhava com a lesão do queixo resultante do uso de fórceps.
Caderneta quilométrica A política em CTV é como óleo misturado com areia, ou como sargaço, na maré alta, levado à praia pelo movimento de fluxo e refluxo do grande oceano da História. Todavia, e contra o que diz e o que pensa a voz oficial, nunca houve nem poderá haver vida urbana sem fundamento político, uma vez que qualquer respiro ou suspiro administrativo será sempre o resultado de escolhas nas quais a foi preterido em nome de b, quando a e b não eram necessariamente criaturas humanas, mas coisas materiais. De 1914 a 1995, a vida na cidade foi política de todos os matizes e neles não faltaram homens da furibunda direita de Plínio Salgado ou da Arena dos possessos militares de 64. O velho Café da Esquina, onde os pecados foram mais desejados que realizados, serviu café a todos eles, quais sejam, Adhemar, Jânio, Getúlio, Jango, Lula. Oitenta anos nos quais os resultados administrativos foram aplaudidos ou xingados, com a ressalva de que a política não foi elidida, simplesmente porque, se você a suprimisse, não sobrariam nem cidadãos nem cenário para narrar nossa vida urbana. A cidade não é mesa de sinuca em que a grana foi posta na caçapa até que a bola 7 sorria para o taco mais hábil. Na cidade vivem nossos pais, irmãos, amigos e nela se enterram nossos mortos. A cidade pode ter semáforo ou asfalto, mas isso, até certo ponto, é contigencial. Ainda que gregos e romanos não tivessem conhecido o semáforo, eles inventaram a Política. A política é a mãe do sonho e da mudança e o estofo do sonho é feito de cola e prego político. A administração que se iniciou em 1995 pensou em estabelecer novos fundamentos para o mundo dos homens e reafirmou até a exaustão a autenticidade do gesto mecânico contra o esboço político da ação. Cada um de nós vai na direção das próprias certezas ou idiossincrasias e, ainda que nossos discursos pareçam dadaístas, podemos teimar em sustentá-los. O PSDB não é o ovo de Colombo que se pôs de pé pela submissão das leis da Física ao delírio, mas a ferramenta socialista que brotou dos escombros da ditadura. É como aquele bichinho virtual de cujo sono e metabolismo você tivesse de cuidar dia e noite. José Serra não é um arrivista que chegou há pouco de Vila dos Anzóis para se instalar em SP, empregar o compadre e roer os cofres públicos até a última raspa. Além disso, a hora dos lobos do PT aproxima-se com a promessa dum estrondoso fracasso. Como o DEM de Kassab não é o de Brasília, ele alinha-se com Serra. Senhores, o trem da mudança pôs-se em marcha, o chefe apitou na gare e quem tiver juízo que monte rápido!
Trem bão era o trem!
A estação da antiga Railway and Company da Rua Rio de Janeiro foi inaugurada no dia 1º. de maio de 1910 com a locomotiva Baldwin no. 9 e a seguinte equipe de apoio: Florindo Alves (maquinista), Benedito Vieira (foguista), Alonso Bertoni (chefe da estação) e Pedro Bertoni (telegrafista).Procedente de Jaboticabal, Pedro Celli havia doado ao distrito os terrenos da estação e da futura Praça da Independência. Naqueles dias, o homem abonado movia-se pelo espírito social e a visão larga das coisas. Fomos ejetados para fora da história de CTV, cujo desastre jamais poderá vir a ser consertado. Uma questão básica para a qual o poder público não tem olhos ou tato é topográfica. Quando pensamos a cidade na atualidade, nós a imaginamos da Washington Luís para a estação da EFA, e essa perspectiva incorreta aponta para o predomínio do carro individualista sobre o transporte coletivo. A cidade teria de ser vista como sempre foi durante 50 ou 60 anos, quer dizer, da Estrada da Laranja para baixo, até a linha férrea, e depois para cima, até os confins da antiga Rua 3/Brasil. Os primeiros moradores da cidade, mineiros de origem, deslocaram-se do sul de Minas para o São Domingos do Cerradinho pelo imenso platô de Barretos. Instalaram-se na parte mais alta da futura vila, quer dizer, Higienópolis, Vila Motta e São Francisco. Com o pé de meia da safra do quarto ano nas fazendas de Henrique Dumont, na região de Ribeirão Preto, o capataz Giuseppe Sartori adquiriu a Fazenda Moreira que se espraiava dos confins do haras do Sr. Sorentino até os contrafortes do barranco da EFA, na Rua São Paulo, estendendo-se pelo São Francisco. Se o mautorista catanduvense percorresse a pé a cidade, entraria no túnel da história e, por fim, localizaria os sapatos perdidos na véspera. Sartori plantou café na propriedade, empregou mão de obra e imprimiu musculatura econômica ao burgo. A inauguração da estrada de ferro quase dez anos antes da instalação do Município mostra com clareza para quem queira ver que o café e a ferrovia tiveram importância sociocultural e política superior à laranja, à cana de açúcar e ao automóvel, veículo eminentemente narcísico, paquidérmico, espaçoso e oneroso para o erário público. Da Railway, e de costas para a parte imperial da cidade, você via à frente a vila na sua expansão física, comercial e cultural. Por isso é que você subia de carro a Rua 3, rumo ao futuro ou ao burgo republicano. Catanduva foi a primeira cidade do País a enviar café de trem para o porto de Santos, num trajeto inverso ao do imigrante europeu. Não fabricávamos tesoura, martelo, serrote ou máquina de moer carne, por isso o pai viajava sempre que necessário para São Paulo, e uma vez a cada 5 ou 6 anos com a família. Do trem você avistava a paisagem e firmava amizade com o passageiro da frente ou detrás. Você ia ao WC ou ao restaurante, enquanto o pai folheava o Almanaque do Pensamento. Esse mundo acabou por artes de Juscelino Kubistchek, mineiro como a família Dumont. Vieram abaixo o café da Marina, o Cine Central, o Hotel Accácio, o cheiro e a fumaça da Baldwin no. 9.Ninguém sabe quem foram os Bertoni, Celli, Sartori, Scorza & Cia. A velha Catanduva é um retrato na parede dum bar da moda e como dói!
Assim como o autor de Chico Buarque/histórias de canções contraiu seu nome, de Wagner Roberto Belissimo Homem, para Wagner Homem, as inúmeras anotações coladas às músicas do volume muito bem editado são sucintas, até o ponto do descarnamento ao referir-se a pessoas do convívio de CB.Nesse particular, e numa provável reedição, careceria o livro dum índice onomástico que desse ao leitor o prazer da busca remissiva, quer dizer, que lhe permitisse informar-se, p.ex., de que Marieta Severo, ex-mulher do cantor, estreou no teatro em 1965, na peça As feiticeiras de Salém, de Arthur Miller, cujo enredo esmiuçou a perseguição do FBI às esquerdas norte-americanas, segundo um modelo de perseguição que inspirou o serviço de inteligência do malfadado 64. Em 68, a atriz dublê de musa do poeta participou do musical Roda viva, escrito pelo marido, atuação que a colocou na mira da polícia política. Teria sido interessante poder ouvir ou ler em Wagner Homem palavras sobre a fantástica capacidade de travestimento de Chico Buarque que dele faz não o Ono da dança, mas o da canção, ou então um poeta que se abre mediunicamente para deixar que nele fale, sem peias, a voz feminina. Foi a atriz Marieta Severo que em Chico Buarque abriu veredas para o afloramento dessas mulheres, não só de Atenas, mas do Brasil todo: Betânia, Nara Leão, Gal Costa, Ângela Maria ou Elza Soares. Não é à toa que Marieta e Chico geraram 3 filhas e que uma delas casou com Carlinhos Brown, outro poeta habilitado em mediunizar mulheres. Quanto às reiteradas referências ao PT, penso em Sérgio Buarque de Hollanda, bengala entre as pernas, cara de Jean-Paul Sartre, ao lado de Lula, no Colégio Sion, no dia 10 de fevereiro de 1980, e no que ele diria de José Dirceu, o mensalão e os discursos monotonamente castristas do chefe. Afora isso e mais duas ou três coisinhas, o livro é supimpa, razão por que convido o leitor a degustar o volume e ouvi-lo, já que o autor é um raro contador de histórias.
A gueixa da UNIBAN Em foto da revista Veja, Geisy, a aluna da UNIBAN, está de pé, ao lado da carteira, sobre a qual vemos um guia turístico do Japão. Geisy/geisha/gueixa. Geisy foi uma queixa de repente perseguida por samurais transtornados que não se descobriram para além dos apupos, gritos ou gestos misóginos, em tudo e por tudo estranhos a quem diz adorar garotas, cerveja e cigarro. Soy loco por ti, América, todavia tiengo un miedo muy grande desse cuerpo de mujer o de sus blancas colinas. Na prova da Brahma, os samurais de província tiraram 6 e meio. Apesar de não saberem quem são nem para onde irão, não podemos perdoá-los. Daqui a 15 anos terão rugas no pescoço como o José Mayer, mas continuarão imaturos, sem poder oferecer a espada de pau ao imperador. O imperador que se dane, para que, assim, os céus se rompam em lágrimas azedas. A gueixa sabe para onde vai ou até mesmo por que se vestia de vermelho: Ko em japonês significa carmim, a cor do afeto. Ao contrário do verdadeiro samurai, os aprendizes da UNIBAN andam, pensam e reagem em bando, como as pombas da pracinha. Enxotadas, nenhuma delas é capaz de se dizer que não precisaria sair correndo ou voar, mas que poderia ali permanecer e tranqüila comer piruá a manhã toda. Pode ser que Geisy/gueixa fosse para eles a soma reencarnante de todas as namoradas e que, nesse caso, eles teriam se deixado apunhalar pelo ciúme. Está certo: samurai ofendido comete haraquíri.
O hotel desmanchou-se no ar com todos os velhos hóspedes
O modo como se demole prédio público ou privado comprova que o agente de desconstrução, movido por ímpeto capitalista, não oferece à memória arquitetônica da cidade rede ou amparo impeditivos da doença do não reconhecimento do que houve naquele lugar e que ali poderia ter permanecido. O Cinetheatro República, a segunda versão do Banco do Brasil, nas esquinas da Rua Brasil/Alagoas e o Hotel Accácio abateram-se como se abatem gado ou árvore produtora de madeira de lei. As três construções eram partes da seção nova ou republicana da cidade, ainda que o hotel tivesse sido erguido no limite entre a cidade imperial e a nova cidade. O República tinha sido inaugurado em 1927 e o BB datava dos anos 50s, segundo precioso marco de nossa identidade mineira. Guimarães Valle, seu grande projetista, ligou-se ao grupo de Cataguazes que, logo, se abriu para a modernidade de Le Corbusir, o mestre de Oscar Niemeyer.Éramos modernos nos anos 50s e, hoje, regredimos para um patamar empobrecido de cultura em geral.
Lee Miller na banheira de Adolf Hitler
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No dia 30 de abril de 1945, a fotojornalista Lee Miller, correspondente de guerra da revista Vogue, entrou no apartamento do ditador alemão em Munique: prédio do número 16 da Prinzregentenplatz. Ela estava com o amigo e amante Dave Scherman, correspondente da Life. O apartamento tinha sido abandonado, porque os ratos, quando se dão conta de que o navio vai a pique, saltam da amurada para o mar tempestuoso. Lee tirou a roupa e entrou na banheira. Ela era ousada e, desde a década de 20, vivia na Europa, onde conheceu Pablo Picasso, Man Ray e Jean Cocteau, dentre outras figuras grandiosas da literatura e das artes que souberam dar ao mundo o formato de modernidade.Sem eles, estaríamos todos cegos, surdos e mudos. Naquela noite, Hitler se matou no bunker com Eva Braun. Há um retrato de Hitler próximo de Lee. Aos pés da banheira, vemos os coturnos enlameados que ela usou na visita a Dachau, onde morreram milhares de judeus nos fornos crematórios. Refinada, a fotógrafa observou que os quadros que decoravam as paredes do apartamento eram medíocres e que, numa mesa, ela viu uma águia de plástico com as asas dobradas. Hitler adorava o kitsch ou o bocomoco e em nome de seu mau gosto por pouco ele não destruiu a humanidade. Ela viu também um passaporte britânico em nome do ditador e deve ter-se perguntado sobre o uso improvável do documento.Como Churchill preferia o diabo ao ditador alemão, não sabemos o que o maluco iria fazer em Londres. Procedente de uma cidade de nome quase impronunciável para um falante de Língua portuguesa – Ponghkeepsie, no Estado de Nova York, Lee, nascida em 1907, viveu 70 anos, ao contrário dos 56 de Adolf Hitler. Fez fotos brilhantes e definitivas sobre o melhor e o pior do que viu em seu tempo. Uma delas ilustra a combinação de macabro e o destino que a Segunda guerra mundial determinou para os nazistas: um soldado da SS, morto, flutua sobre um canal nas proximidades de Dachau.O pesadelo chegara ao fim e, desde o término da guerra, não apareceu no mundo adolescente ou adulto de miolo mole que consiga restaurar o inferno nazifascista, seja em CTV, seja no lugar em que Judas perdeu as meias.
![]() O vereador Bersa Pimpão é cultor de mitos: anda sempre à procura dum rosto e dum corpo que, no espelho, pudessem substituir os seus por outros imaginários. Assim, ele se identifica com Adolf Hitler, como outras criaturas modelam-se por Elvis Presley ou Lula. O primeiro não morreu e o segundo está bem vivo. Pela Psicanálise, isto se dá por catexe ou transbordamento da energia instintiva ou libido, matéria fluida que, ao colar-se nesses fantasmas, empobrece o ego do mitômano.O ego passa a atuar num palco de semelhanças e dessemelhanças. O mitômano é o que é ou aquilo que ele gostaria de ser. Depois de Hitler, Bersa fez de Eva Braun a sua noiva-cadáver, porque ela ingeriu cianeto em 30 de abril de 1945, no dia seguinte ao casório com Adolf, no bunker ou Túmulo do Fuhrer, prefigurador da Terra dos Mortos, pela qual Victor apaixonou-se, depois de casar-se, por engano, com Victoria Everglot. Quem ama o feio bonito lhe parece. Eva já havia tentado suicidar-se noutras ocasiões: revólver e sonífero. Assim como a Terra dos Mortos pareceu a Victor mais animada que o mundo vitoriano em que nascera, a Alemanha hitlerista sempre parecerá a Bersa mais eletrizante que o bairro cinzento de sua infância. Hitler foi um amante amador: diante da insistência de Eva em consumar o casório, o ditador respondeu-lhe que "um homem extraordinariamente inteligente como eu tinha mesmo de ter mulher burra e primitiva". Hitler era modesto e maravilhoso. Eva viveu 33 anos e Adolf 56. Um soldado do bunker despejou gasolina nos corpos e neles botou fogo. O ditador e a noiva-cadáver viraram churrasco. Há quem pense que o homem estaria vivo metido em algum buraco do planeta. Com 120 anos? Hitler era hipocondríaco e fez uso de fármacos, em geral de uso limitado: cocaína, anfetaminas, testosterona, estradiol, corticóides, estricnina, atropina, extrato de vesículas seminais, conforme relatou seu médico particular Theodor Morell. Hitler sofria de distúrbios intestinais, Mal de Parkinson, sífilis terciária, dermatites e oscilações de humor. As anfetaminas são redutoras do apetite e das elevadas cargas de agressividade. Se você aplicar numa aranha anfetamina e Pervitin, ela não saberá mais como tecer a teia. Hitler foi uma tarântula enlouquecida. De outro modo, como teria ele mandado executar em massa milhões de judeus, alemães, italianos, ciganos, espanhóis ou russos, como Olga Benário, baleados ou mortos nas câmaras de gás dos campos de concentração? O modelo gerencial do campo era parecido com o da fábrica: a criatura entrava vestida e barbuda/input e saía como cadáver pelado/output, com os ossos à flor da pele. Em nossos dias, Hitler ficaria noivo duma anoréxica. Ninguém chegava atrasado porque todos os operários moravam e trabalhavam na fábrica, sem direito a férias ou 13º. salário. O regime era estafante e semelhante à linha de montagem da Ford ou da Siemens. Os gerentes da SA administravam o humor dos operários: dentes de ouro e anéis faziam parte do acúmulo de capital; a pele virava abajur, sob cuja lâmpada acesa Hitler jamais pôde ler o próprio necrológio.
26/10/2009 Desde Nietzsche que as auroras eram bem-vindas!
![]() Aurora era o nome da ex-mulher do prefeito da novela Paraíso que o teatrólogo Benedito Ruy Barbosa reescreveu com as filhas. O talhe psicológico da criatura literária saiu-se melhor que a encomenda. Desconfiada do discurso carregado de patranhas e firulas maneiristas do ex-marido, Aurora amuou, bateu o pé, saiu de casa de mala e cuia e resolveu lançar-se candidata a prefeita. O discurso chocho do ex-marido esfarelou-se. Se os nossos políticos, secretários, vereadores e adjuntos de município quisessem ter feito excelente curso gratuito de Política, deveriam ter assistido à novela Paraíso.Não custou nada e o aluno poderia ter-se confrontado com a própria imagem enviesada no espelho da novela.Vaidosos, os políticos pensam que sabem como são, mas tanto eles quanto nós, eleitores, tudo ignoramos sobre eles, por isso carecemos da obra de Arte que nos diz para que estradas, picadas ou barrancos eles nos levam. As personagens de Benedito Ruy Barbosa sabem pensar e sentir, por isso têm vida própria.São redondas, isto é, completas. O autor não adotou o padrão subliminar de construção dos textos globais baseado no poema do mineiro Carlos Drummond de Andrade, no qual A ama B que ama C que ama D, e vai por aí afora, até que todo mundo enrosca -se na vida de todo mundo para fazer do Édipo truque para o espichamento da novela: 250 capítulos, 40 laudas por capítulo, 10 mil laudas no final.Viver, de Manoel Carlos, estende o enrosco de Búzios a Paris.Benedito passa batido pelo nu sugerido ou explícito, e a jovem rejeitada, porém apaixonada confessa, declarou ter sentido frio na espinha ao cheirar a camisa do amado a quem não se declarara. Benedito sabe o que quer e bota essa sabedoria na boca das personagens. Por isso é que Zeca Diabo podia ser grosso num momento e delicado noutro, do mesmo modo que Cássia Kiss soube dar à sua beata genuíno estofo de loucura. Fato curioso da confecção da novela é que, até o final , ninguém foi impiedosamente castigado e tenho com os meus botões que o Autor, como Nietzsche, rejeita a mais mínima idéia de vingança que, quase sempre, move cérebro e alma de políticos, apolíticos e figuraças ditas religiosas.Bateu? Levou. Quebrou o nariz? Fez por merecer. E nisso entra a outra Aurora ou o livro Aurora do fílósofo alemão, datado de 1880-1881 e subintitulado pensamentos sobre os preconceitos morais.A epígrafe de Nietzsche foi extraída do Rig-veda dos indianos e diz: "Há muitas auroras que não brilharam ainda". Por que elas tardam? Disse a Aurora do Benedito que o candidato a prefeito tinha de ir ao povo e escutá-lo, como recomendava o trisavô de Nietzsche ou aquele italiano que muita gente cita sem ter lido - Nicolau Macchiavelli.Quem o faz? Por outro lado, e esperta como só ela, Aurora afirmava que sem barganha ninguém chegaria lá. Porca miséria!E deveríamos ter tomado um vinho com o pároco e o velho Bertoni perdido de amores por Zuleica. "A minha Zuzu", disse o coroa ao filho desajeitado com mulheres.Por falar em Bertoni, algum político por aí ainda se lembra de João Bertoni, socialista de verdade e co-fundador do PSDB local? Aprendam a lição: o morto logo se esquece!
14/10/2009 A velha, o prefeito, a câmara
Grande parte do dia, ela passa numa cadeira de rodas, alimentada à boca, calada no mais das vezes, pergunta se você já tomou café e onde estão as meninas. Quando a cadeira é conduzida para a varanda, ela continua quieta, acompanha com os olhos o avião, limpa a boca na camisa e, de vez em quando, ajeita-se na cadeira. A varanda é o seu Windows xp, mas também o Twitter, o Orkut, o Facebook ou o Yahoo. A varanda abre-se como tela para o seu mundo apequenado: as nuvens se formam, precipitam-se como chuva, venta, as folhas secas das árvores flutuam no ar e pousam no ladrilho, a juriti acasala-se à espera do Verão, os carros sobem e descem, as pessoas descem e sobem, alguém acena para ela que a custo retribuiu com outro aceno. Ela tem 96 anos e é mais velha que CTV. Quando moça, vinha de Santa Adélia pela EFA para comprar parte do enxoval na Casa Verde. Quando o Rio São Domingos transbordava, ela e o pai tomavam um barco atracado logo depois do restaurante A cabana e saltavam no início do ponto de subida da Rua 3/Brasil. Até 8 meses passados, vassoura à mão, ela ia para a calçada bem cedo para bater caixa com os passantes: conhecia a vida de todo mundo, relacionava o bisneto com o bisavô, sabia de onde procediam, quem da família morrera de quê e assim por diante. Ela se comunicava e, por certo, devia usar a cada dia as 16 mil palavras que os neurólogos calculam que as criaturas sadias usam. As suas eram palavras triviais sobre clima, emprego, custo do pão e da carne, nascimento, casamento, morte. Ela não conhece pessoalmente o prefeito da cidade, mas, com certeza, sabia de cada um dos membros da família. Quando o prefeito nasceu, ela já andava pelos 40. Quando ela veio ao mundo, CTV não era município, portanto não tinha câmara e, quando instalaram a câmara, o cargo era honorífico e o edil exercia com prazer e eficiência suas tarefas. O orçamento da prefeitura, nos dias de juventude da velha, era magérrimo e os impostos suportáveis. Os sátrapas não haviam se entrincheirado no corpo administrativo.Ela não conheceu o vocábulo sátrapa, mas ouviu na família italiana que, no final do século XIX, na Europa, as coisas estavam pretíssimas. Ermanno Olmi, em L'albero degli zoccoli/A árvore dos tamancos, filme interpretado por camponeses de Bérgamo, conta que, antes de passar com o trigo pela balança de pesagem, os contadini enchiam de pedras a caixa de ferramentas da carroça. Dono da propriedade, da casa, das ferramentas e dos animais, o patrão apropriava-se de 2/3 da colheita.Uma pedra pelo que me tomam. O prefeito sabe disso pela família italiana e por ter estudado História na escola. A câmara também, ora chefiada por Marcos Crippa ,de ascendência meridional. Quase todos os que aqui estamos viemos de europeus empobrecidos. Onde então reside o problema? No fato de, apesar de a administração ter-se modernizado, a comunicação com a câmara, os cidadãos e o corpo administrativo achar-se abaixo da crítica, cujas palavras talvez não passem de 8 ou 10 mil por dia.Quem fala por nós? Será que o sr. prefeito usa um desses sites de chat para falar com a câmara? E com a comunidade representada pela câmara?Ao prefeito não cabe zelar pela comunidade, enquanto que à câmara toca decidir se no gesto do administrador houve equilíbrio e acerto?
26/09/2009 Deflagrada a Revolução Francesa, e nos dias que se seguiram à maior agitação política da História, até hoje reconhecida, o gabinete foi palco de trabalho consistente e tutano posto a serviço da Política.A Europa estava de pernas para o ar, e o monarca assustado enfurnou-se embaixo da ponte do Antigo Regime. Nos tempos de Lênine, o gabinete mesclou-se com os sovietes, as decisões eram rápidas, havia mudança e resistência sob os céus de Moscou e o emperramento na zona rural mantinha o fordinho socialista encalhado no barro.O segundo gabinete de Getúlio Vargas foi breve e tumultuado, enquanto, lá fora, Carlos Lacerda caprichava no uso do estilingue contra as águias pousadas no frontão do Palácio do Catete. Antônio Gramsci não pensou o Socialismo no interior dum gabinete,mas no presídio sob Mussolini, ao contrário de Churchill que o usou como refúgio e lugar de elucubração dos planos de guerra. Nicolau Maquiavel, muitas vezes, trocou o gabinete pouco ventilado por estradinhas de terra de San Casciano. O PT adora conversa em voz baixa de gabinete, mas o bate-papo não se conduz pela dialética, porque tudo já terá sido decidido pela vontade do chefe & seus acólitos. Embora possa ser confundido com gabinete, o Partido é o lugar ou o momento em que se resguarda a teoria, ou dela se servem os intelectuais para movimentar o Socialismo. O Partido pretende alcançar o poder, mas não para transformá-lo num gabinete em que se atropele a teoria. O gabinete é ou deveria ser o lugar onde a práxis põe-se em marcha. O Partido é o avalista e o corretor da práxis e quem o atropela ou nele se apóia apenas para alcançar o poder ou então renovar-se no poder faz o que Stálin fez: atua de modo discricionário ou personalista.Nem sempre quem vive à volta do governante percebe-lhe os disfarces ou a mentira. Como disse o rei Duncan no Macbeth: There’s no art to find the mind’s construction in the face, ou seja, “Não há engenho que nos ajude a ver no rosto as artimanhas da mente”.O governante no poder não pode colocar-se acima do Partido. O Partido só perderá força quando a engrenagem da máquina socialista estiver produzindo seus efeitos. Nesse sentido, somente em dois momentos o Partido atuou com vigor em CTV: 1º.) como MDB, nos anos de chumbo da ditadura de 64; e 2º.) como PSDB, no período de instalação, com Maranhão, João Bertoni Coelho e outras criaturas de vocação socialista, todas elas absolutamente fiéis a Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Alberto Goldman ou Aluysio Nunes Ferreira.
21/09/2009
O mundo visível à nossa volta, incorretamente denominado de Real, resultou dum processo continuado de construção, reforma e descontrução. O inefável Paschoal Roberto Turatto exibia em seu museu de bolso a bilha na qual os construtores da matriz de São Domingos traziam água do Rio Minguta, pelo paredão ascendente da Rua Cuiabá ou Recife, para beber e usar na receita da argamassa da velha capela. Fosse original ou comprada dum oleiro de Catiguá, a bilha existia e os pedreiros da igreja tomavam água e amassavam barro. Com isso, esses artífices, dia após dia, uma casa aqui, um boteco ali, risco numa folha de papel de pão, iam dispondo no modestíssimo palco rural da vila o cenário ao redor do qual as criaturas iriam sonhar, pôr filhos no mundo, gritar, espernear, subir e descer a perigosa ladeira da Rua 15 de Novembro.Onde houver Natureza, afirmou Karl Marx, haverá Cultura. O domínio dum ofício autoriza a criatura a ocupar a posição de chefe na construção do mundo visível, porque, se é verdade que todos sonham, só o artesão é capaz de trazer do invisível para o visível a bilha, o automóvel, o avião, a bicicleta ou o projeto de despoluição do rio, por cujos estertores respondem o progresso e seus artífices. A guerra só se faz porque os engenheiros ou os estrategistas militares a desenharam em seus cérebros, e as conseqüências dessas operações são a morte e a destruição parcial do mundo visível. A borrasca ou o tornado também são construtores/reconstrutores/desconstrutores. As famílias Bush e Ladden são sócias há 40 anos em empresas de engenharia civil especializadas na reconstrução de cidades parcialmente destruídas pela guerra.Temos de admitir, no entanto, que os engenheiros são seres exponenciais, sem cujo domínio da Matemática não saberíamos mais como ir daqui até a esquina ou beber água limpa ou suja. Entre os anos remotos de 2600 e 2650 a.C., viveu no Egito o polimata ou engenheiro Imhotep que, dentre outros feitos, desenhou e supervisionou a construção da pirâmide de Djoser. É óbvio que aos olhos dos grandes admiradores das pirâmides não importa saber que a serviço desses túmulos trabalharam milhares de criaturas, fortes o bastante para arrastar pedras colossais daqui para lá e colocá-las umas sobre as outras, cujo prumo correto era verificado por Imhotep.Esse homem foi talvez o primeiro engenheiro, arquiteto e físico da história da engenharia, razão por que ouso sugerir aos doutores engenheiros mandar confeccionar cópia de uma de suas estatuetas e mandar colocá-la bem visível à entrada do clube de engenharia.Im ho tep signo vinces. Os engenheiros são craques, mas não se iluda: escondem tanto o leite quanto os truques para que as coisas fiquem de pé ainda que por tempo determinado.Dunga, agora, e Feola, noutros dias, sabiam disso. Quando se deu conta de que o Egito estaria sujeito, no período ptolomaico, a um período de seca e fome de sete anos, Imhotep anunciou que iria bater um bom papo com um dos deuses do Nilo pedindo-lhe que resolvesse a grave questão. O segredo guardado a sete chaves por Imhotep é que só ele conhecia o regime de cheias do Nilo e a fertilização das terras agriculturáveis. O coelho só pode ser tirado da cartola porque a bela auxiliar do mágico o colocou ali. Ao levar em conta que tanto o goleiro quanto o cobrador do pênalti, suam a mão e tremem diante do inevitável, aí vai uma frase para ser anotada na prancheta do engenheiro: "Não há obra de engenharia capaz de deter tsunamis ou evitar erupções vulcânicas".
12/09/2009
Se você convidar seu cão para um passeio, ele abanará o rabo e, certamente, irá acompanhá-lo de bom grado. Dois dias depois, raivoso, ele poderá morder-lhe a mão e, num acesso de fúria, você lhe dirá alguns palavrões, cujo significado ele não poderá entender. Não é que ele compreenda algumas coisas e ignore outras. O complicado do palavrão é que ele cruza o canal noturno do simbólico ou do metafórico e quem o diz, musculoso ou raquítico, faz uso do corpo e suas excreções.O cão não leu Aristóteles, razão por que nada sabe de metáforas.Enfim, a morada do palavrão é o WC. Na história da câmara de CTV, há muitos anos, um nobre vereador, possesso, abaixou o microfone, virou-se de costas, assestou o traseiro e soltou um tiro de canhão tão potente, que teria ganho o prêmio mundial de puns na Espanha ou na Itália.
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