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AMN e a Herança Política
.Somos um país de emigrantes, quer dizer, displaced persons que de lá vieram para cá. Tínhamos fome e frio, mas não terra onde plantar o milho para a polenta, e três alqueires com capim gordura para a nossa vaca pastar. O prefeito seria um dos nossos se o seu inconsciente quisesse fazer dele um dos nossos. Não quis nem vai querer.
Desdobramentos da convenção de março do PSDB A montagem da chapa 2 concorrente ao diretório do PSDB local e a vitória da chapa 1, em março, repetiram gestos e fragmentos de discurso de 1968, 69 e 70, tempos de luta das esquerdas catanduvenses contra o arbítrio da ditadura e o controle da ARENA por Orlando Zancaner. Num primeiro momento, as esquerdas enquistaram-se na ARENA 2, da qual foram catapultadas por OZ; num segundo momento, fortalecidas pelo embate, fundaram o MDB. O gesto foi tão ousado, que Zancaner presenteou-nos com a prisão em Lins, em novembro de 1970. Fomos confinados naquele dia de Finados tão distante. Mais tarde, o fisiologismo do MDB quercista resultou no surgimento dum avatar vigoroso – o PSDB de João Bertoni Coelho, Maranhão e o redator destas memórias. Se é verdade que o MDB abriu veredas na mata fechada da ditadura, o PSDB, com Fernando Henrique à frente, atualizou o Capital do País, desde Vargas descarrilado. Essa atualização foi acompanhada de programas sociais competentes desenhados por Ruth Cardoso, esposa do presidente. O MDB local, primeiramente pensado por Ico Ceneviva, tomou forma e cor no curso de madureza de Édie Frey, antigo boliche da Rua Maranhão. Mais tarde, a célula inchou e perdeu substância política à esquerda. O PSDB surgiu com vigor, até que, na atual administração pública, por pouco não foi parar no rol de roupas sujas. Escrevi sobre isso nos primeiros dias do segundo mandato de Afonso Macchione, ocasião em que afirmei que o prefeito havia-se tornado maior do que o partido. Ora, quando isso acontece, a criatura designada para a regência da orquestra só pode ser vista como alguém que olha para a partitura e os músicos como se eles estivessem fora de lugar. Afonso não vê no partido o lugar para onde se voltam os membros para discutir programa e pensar nas melhores estratégias da práxis política. Política vem de pólis, a cidade dos gregos, e político é o homem da cidade. Na zona rural de outros tempos, quando o Capital só sabia parasitar a cidade, pressupomos que a safra não dependia do resultado do entrechoque entre patrão e assalariado, mas do bom ou mau humor da natureza. Por escolha, Afonso estará sempre ao lado do Capital. A chapa 2, em momento algum, pautou-se por princípios da boa ética e, o que é grave, menosprezou a capacidade de articulação do adversário. Dissolvido o diretório e constituída a equipe provisória, retomaremos as discussões intrapartidárias para, a seguir, ir até o catanduvense com o propósito de mostrar-lhe que ainda existe vida inteligente e moderna em Catanduva. A cidade estacionou num ramal ferroviário entre o Nada e Coisa alguma. As pessoas de bem sabem disso. Vamos de novo dançar, dançar e voar, voar e sonhar.Libertos das amarras da carranca e o arbítrio extemporâneo.
Brok Elbank, o borracheiro
Não me venham com essa história de presídio outra vez.A cada festinha de governo, os caras aparecem empetecados, quer dizer, encamisados, dão uns pinotes no Café da Esquina, e deixam para o final do encontro o anúncio da coisa engripante: o cadeião agora vai vir com grade ou sem grade, murado ou protegido pela Seletrol, com quartinho íntimo ou devassado. Estou preparado, ou quase. Sou borracheiro desde que me conheço por gente, mas nunca me meti na porcaria do Alpino. O meu negócio é muié pelada da Playboy. E, como vão aparecer, nos fins de semana, mais uns 300 carros (e carro fura pneu), lancei uma promoção: remendem o pneu furado com o Brok e concorram a uma coleção completa da Playboy em 3ª. dimensão.
Um livro feito de asas
A palavra leitura tem muitos sentidos. O moço da companhia de luz, por exemplo, faz a leitura do relógio de força, do mesmo modo que lemos ou deciframos gráficos ou placas de trânsito. Ler, deduzimos, não é apenas decodificar letras ou palavras, mas também identificar e reconhecer números e símbolos. Lemos também as horas no relógio. Por extensão, poderemos ler a natureza – rio, árvore, nuvem -, coisas que o satélite, como extensão de nosso olho, executa há algum tempo. O médico lê no rosto do paciente sinais do mal que o acomete, como o juiz lê no rosto do réu a palidez do fratricida. Os cegos lêem com a ponta dos dedos. Os sentidos de leitura diferentes da capacitação para a busca e o reconhecimento de palavras altera a noção corrente de analfabetismo, a qual, pelo modo pouco usual de ver as coisas, seria bem menos assustadora que os dados tabulados pelo IBGE. Ônibus dum grande centro urbano podem ser lidos pelas faixas de cor indicativas de procedência, trajeto e término do percurso. Advirtamos o leitor, todavia, que a presente matéria não prega a volta às décadas dos anos 30s e 40s, durante os quais 80% da população brasileira era analfabeta. Nosso intuito é resgatar sentidos esquecidos de leitura. Um desses sentidos confina com liteira, veículo que transporta, ao mesmo tempo que embala quem nela viaje. Assim, o ato de ler em profundidade deveria remeter-nos a outros espaços – físicos ou mentais – nos quais ficássemos por um tempo distantes da bulha do mundo em que estamos; e que isso se fizesse de tal modo, que pudéssemos nos sentir numa cadeira de balanço, cujo vaivém abrisse para nós comportas de sonho. Outro sentido de leitura remete-nos a leito, local de repouso ou espaço em que jazem a criança, o velho, o doente ou o moribundo. Deduzimos desse sentido que ler pode e deve ser consolo para a alma fatigada, ou estímulo para a mente em formação da criança. Um terceiro sentido de ler conduz-nos ao ato de coleta ou colheita que, dentre outras noções, revela o interesse em ajuntar idéias ao optarmos por esse e não por aquele livro, cuja leitura - uma vez concluída - resulta em messe farta, futuro pão para o espírito. Em alemão, Beeren lesen (do verbo ler) significa “colher amoras”, acepção que nos remete ao prazer físico ou gustativo da leitura. Ao intuir esse sentido, Castro Alves falou no homem bendito que semeia livros. Concluímos, assim, que o amplo entendimento do ato de ler não implica necessariamente na visão dum ser passivo ou estático, e quase sempre sentado à mesa, mas na percepção duma lépida criatura orientada pelo vir-a-ser. Ler é abrir-se para o futuro.
Jornalismo e liberdade Censura, cesura, scizor, a tesoura corta e recorta fragmento do texto, corta, retalha o cerne do músculo do texto, o coração sangrento do texto, pois que censura, cesura escura, só conhece um caminho, o de Benito Mussolini, inscrito, gravado, marcado nos muros de Roma: al popolo solo resta una parola: obbedire. O jornal é a diária e teimosa desobediência ao interdito mesmo que para isso lhe decepem os dedos, o interdito é forma corrosiva de calar no fundo do poço mais profundo o que poderia ter sido dito, escrito e que, por isso, embrulharia o interdito em papel de jornal da antevéspera com pedra, para ser lançado no Rio Letos do esquecimento, da mentira lavada e deslavada, da palavra que perdeu fio de bigode, caspa ou pele seca para se transformar em bagaço, nada, temor, terror, como se o cardeal Frollo do corcunda de Notre-Dame ainda pudesse desmontar, encaixotar o prelo e escondê-lo embaixo da cama, atrás do vaso, na curva do beco abscôndito. Censura, cesura, scizor, a tesoura corta e recorta fragmento de texto, corta, retalha o cerne do músculo do texto, o coração sangrento do texto, pois que a censura, cesura escura, só conhece um caminho – o do decepcionante silêncio.
Cama de noivo no colo de Iemanjá
Stan Getz, Alfred Hitchcok, Rock Hudson, Janis Joplin, Gene Kelly, Peter Lawford, Steve McQueen, Robert Mitchum, H.G. Wells e Adolf Eichmann, dentre outras personalidades, tão logo foram dadas como mortas, tiveram os corpos incinerados e, a seguir, as cinzas lançadas ao mar. Ainda que isso possa parecer-lhe estranho, trata-se de ritual muito antigo. Para Israel, de modo algum, Eichmann, o carrasco nazista poderia ter sido enterrado em território hebraico, e, caso seu corpo fosse depositado noutro lugar, o túmulo acabaria por tornar-se local de visitação, culto impensável para os judeus. Vê-se, portanto, que o túmulo, como já havia percebido Malraux, é o avalista material de que a imponderável memória do morto vai-se conservar, até que os fenômenos físicos incontroláveis como os tornados reduzam a pó a última morada dos homens.
Vide ‘o mare quant´è bello Na baixa estação muitas são as vantagens de você fazer mala e cuia e sair por aí, com rumo ou sem rumo: preço reduzido e conforto relativo ao caminhar pelos calçadões de Taormina sem tropeçar nas pernas dos turistas do mundo todo.Taormina é parte da Sicília e, noutros tempos, foi grega, depois sarracena. Na Europa ou nos EUA, calçadão é calçadão e não estrangulamento da via. Se tivéssemos calçadão, poderíamos andar nos fins de semana pela Praça da Matriz ou República sem receio de multa porque, até o momento, os afetados não descobriram jeito legal de multar pedestre. Em Taormina há um maravilhoso anfiteatro grego.O nosso não saiu do papel. Um dia solicitei à ex-secretária Nathália Manfrim, minha aluna noutros tempos, que me levasse ao depósito de plantas da prefeitura: pó, traça e papéis enrolados a dar com pau. Recomendo à secretária Bonjovani encontrar um curador competente que entre de máscara e luva naquela saleta para localizar plantas de interesse público e exibi-las no salão de exposições. Uma delas é do casal Luiz e Bia Rolland projetada para o teatro municipal: teatro grego ou de arena a céu aberto! Juro em cruz que a afirmação é verdadeira. Warley, prefeito inesquecível, desenrolou a planta numa mesa, falou,discutiu, pegou uma tesoura o cortou ao meio o projeto, a seguir construído sem o teatro, nos fundos, na direção do bosque. Contei ao prefeito Macchione a história e ele me olhou com cara de paisagem. É uma pena porque os edifícios públicos sobrevivem às sumidades urbanas ou suburbanas. Un serio lavoro, risultato giusto; comico lavoro, risultato divertente; lavoro volubile, risultato solubile. La piazza è nostra. Lavoro molto faticoso. Fracassei como professor de Filosofia porque não consegui entender a lógica da prefeitura “Trabalho sério, resultado certo”. Pergunto: o trabalho do cômico é sério ou ridículo? E o resultado? E tu dicce: I’ parto, addio!
Um corpo, dois corpos; duas almas, uma só alma
![]() Há muitos e muitos anos, uma equipe de sanitaristas da UNESCO (médicos, antropólogos, psicólogos) foi ao coração da África, com o propósito de ensinar uma série de coisas aos negros. Quando um dos brancos posicionou-se para fotografar uma daquelas criaturas, ouviu um não que, mesmo dito em dialeto africano, foi entendido pelo fotógrafo europeu. O branco quis saber do negro a razão da recusa, ao que,espantado, ouviu que sua alma seria transplantada ou roubada pela imagem registrada pela câmara. Ainda que isso pareça absurdo ou irracional, é o que Oscar Wilde entendeu e disso escreveu sua obra-prima chamada O retrato de Dorian Gray. Olhe para a foto do Sr. prefeito e o primo: o secretário, à esquerda, mesmo dobrado, coloca-se 30 centímetros acima do parente alcaide que pende a cabeça como quem não concorda em gênero, número e grau com o discursante. Coisa da Geografia, da História ou das etnias: o primeiro é espanhol até onde uma criatura humana pode ser espanhola, enquanto que o segundo é meridional, do sul, lá embaixo da bota. Garcia é o que é, Affonso é o que parece ser. Garcia é incapaz de camuflar o pensamento, ainda que suas caraminholas sejam como as do famoso cidadão capaz de transformar borboleta em porta-aviões e pousar nele sem pestanejar. Garcia tem braços longos, é um longelíneo: os braços são canos longos feitos para servir de apoio para as mãos, capazes de pegar lápis e caneta e lavrar multas e mais multas, até mesmo para o motorista de automóvel que não usava capacete porque jamais pensou em ser piloto de corrida. Affonso tem as mãos às costas como quem está num palanque de parada cívica ou no velório dum parente.Ele não precisa das mãos, porque os funcionários carimbam por ele. Ele está carrancudo,Garcia em defesa contra o indefensável. Garcia tem peito e barriga de tanquinho, Affonso,passado há pouco dos sessenta, cultiva o ventre dos pré-senis.Parente, serpente. Ao contrário do que pensam os editores de álbuns de fotografia da cidade, a imagem registrada em papel ou película cinematográfica serve à Antropologia e ao conhecimento da alma. Cuidado para não perder a sua!
Variações sobre o aniversário da cidade
.93 ou Quatrevingt-treize é também o título do romance de Victor Hugo, escrito na ilha inglesa de Gernesey, dita Garnisé ou Galisé pelos brasileiros, em 1872-1873. Tão logo foi editada, a novela vendeu 8 mil exemplares nos doze primeiros dias e outros 200 mil em 1876. Hugo pensou e repensou a Revolução francesa, da qual poucos querem saber em nossos dias, porque os admiradores da contra-revolução tornaram-se legião. Dinheiro de plástico, por várias razões, é melhor que o de papel: tem menos bactéria e a garantia de que a classe trabalhadora vai pagar a conta.
O triunfo da burguesia
Para Benito Mussolini, socialista por muitos anos e, mais tarde, inventor do fascismo, a burguesia era uma construção, cujos ademanes o pai do fascio não reconheceu como autênticos nem merecedores de fé. Benito tinha lá, e à sua moda, o culto duma época já ultrapassada pela nova classe empertigada. Longe de se mostrar, de fato, como partido socialista, o PT de Lula & caterva extremou classe e subclasses: de um lado, remeteu para a extrema direita a classe alta endinheirada e a ajudou a multiplicar o capital acumulado; de outro (eis o milagre!) fez da água vinho Chapinha e do atum lambari de rabo vermelho e convidou a baixa classe média emergente a sentar-se à mesa, comprida o suficiente para estender-se de Garanhuns a Brasília, São Paulo, Erechim. Santa ceia?
Lições de Alice Quando minha filha iniciou-se no ensino fundamental, antiga escola primária, convenci a diretora da escola a incluir no currículo algumas aulas de Filosofia. Sou grato à escola e às centenas de crianças de 7 a 10 anos com as quais convivi semanalmente e com elas aprendi a ver como são, falam e se comportam. São barulhentas, desinibidas na grande maioria, mas todas elas soterradas pela idéia de que a Linguagem é sempre séria e formal e que, se eu disser pedra, minha boca vai expelir não o som dessa palavra, mas a coisa pedra em si mesma. Como os familiares, elas sofrem do mal do fetichismo vocabular, condição que as desvia do necessário exercício da paródia ou da piada bem elaborada, mas principalmente do culto do nonsense, sem o qual a Inglaterra não existiria. Vi meninos de 8 ou 10 anos, face marcada pelo rubor do ódio, rolando no chão do pátio porque um deles havia chamado o outro de gordo ou barrica.Em razão da grande falta de apetite pelo culto da tolice, da asneira ou do disparate, por parte das crianças, o curso de Filosofia naufragou, porque não consegui convencer meu público de que o fato de eu chamar alguém de gordo não o torna gordo e que, se isso pudesse acontecer, o mundo seria um hospício ou então a casa de Mad Hatter ou o Chapeleiro Louco de Alice no país das maravilhas.Hatter tem um companheiro inseparável, March Hare ou o Coelho Apressado. Hare está sempre atrasado porque na civilização utilitarista e produtora de mercadoria sempre ou quase sempre estaremos atrasados.Naqueles dias do Colégio São Matheus, o Sr. Antônio Ermírio de Morais afirmava de peito estufado que mantinha ativos 60 mil homens e que havia construído fortuna incalculável porque, todos os dias, acordava às 5 da manhã. Hoje, como o Chapeleiro Maluco, o Sr. Ermírio, afastado de seu complexo fabril em razão de depressão econômica, padece dum mal chamado increasing shyness ou distúrbio progressivo da pessoa esquiva. A Rainha dos Corações ou Queen of Hearts acusou tanto o Chapeleiro quanto o Coelho de matar o tempo, ao que ambos responderam que o tempo é que matara a si próprio. No alto do chapéu de copa alta, o Chapeleiro Maluco levava uma etiqueta em que se lia 10/6 ou 10 shillings e 6 pences, porque é muito grande o número de pessoas que o tempo todo referem-se ao preço das coisas. A pergunta “quanto custou?” leva ao delírio. O Chapeleiro era esquivo, hesitante, tímido e padecia da perda de confiança em si mesmo, males por ele atribuídos ao envenenamento por mercúrio que ele usava na manipulação do feltro dos chapéus. Oposto ao Chapeleiro Maluco ou ao Coelho Apressado era Humpty Dumpty, o ovo mandão e psicótico que gostava de ficar o dia todo em cima do muro, como um rei destronado. A obsessão de Humpty era controlar o fluxo do pensamento das pessoas. “Pensem à vontade”, ele parecia dizer, “mas desde que pensem como eu!”Como vêem, ovos, empresários ou coelhos, como as crianças, de modo geral, são pais de futuros adultos ou adultos que, dia e noite, rezam pela cartilha do fetichismo vocabular.
D. João VI, as palmeiras imperiais e CTV Em 1809, D. João VI plantou no Rio de Janeiro a primeira palmeira imperial do Brasil, da qual todas as demais, inclusive as nossas, descenderam. Essa palmeira veio a ser conhecida por palma mater que, depois de alcançar 38,70 m, foi abatida por um raio em 1972.A ditadura de 64 abatia homens, mulheres e palmeiras. Caso você se interesse por palmeiras e queira plantar um pé, vá ao Google: plantas de 17 m custam R$ 3.700. A sombra da palmeira é uma lingüíça enorme e as nossas poderão, amanhã ou depois, figurar no Guiness, na seção de embutidos. Em 1843, acuado pela saudade, em Coimbra, Gonçalves Dias lavrou o famoso poema que muita gente sabe de cor e outros parodiaram. Não estranhe que na palmeira do maranhense houvesse sabiás cantantes. Sabiá come mamão, abacate e coquinho. Gonçalves Dias referiu-se às palmeiras do Jardim Botânico do RJ, mas não disse nada de Napoleão Bonaparte que, depois de anunciar a invasão de Portugal, fez com que D.João e a corte migrassem para o Brasil. Ganhamos palmeiras, janelas envidraçadas, teatros, bibliotecas, academias literárias e científicas, escola de Medicina, museus. O rei era culto e tinha recursos. Nós temos recursos. O rei mandou aterrar os charcos pestilentos da cidade, como Ernesto Ramalho fez com o grande pântano do São Domingos, cuja terra, transportada por carroças, veio do barranco da Railway and Co. D. João VI continua na memória do povo carioca, Ernesto Ramalho virou esqueleto no fundo do baú de nossa desmemória. Noutros tempos, havia duas palmeiras adultas plantadas na Praça da República, em frente do Cineteatro República, antigo São Domingos. Borelli mandou abatê-las sem dó nem piedade.Corinthiano roxo, ele odiava Palmeiras! A Praça da República era tão bonita quanto a de Ribeirão Preto e se instalou num antigo campo de futebol, propriedade dos Benitez, que doaram o terreno à comunidade. A imagem que ilustra estas notas é da palmeira do rei. Se você olhar para a copa por bom tempo, acabará por ver, lá no alto, a flor de lis ou fleur-de-louis, o rei francês. Lis é lírio ou íris, símbolo dos escoteiros, cujas boas ações nem sempre nossos homens públicos têm-se lembrado de praticar. O clube dos escoteiros de CTV fica no Jardim dos Coqueiros, em frente do córrego homônino que, depois do clube de campo, rebatiza-se por Minguta, onde o motoqueiro despencou e morreu. Quase todas as histórias do atual governo são edificantes e monumentais, como as palmeiras.
Aula brevíssima de Filosofia com pitadas de Administração Se eu fosse adversário de Félix Sahão Jr., pelo menos no atual momento da política internacional, em que o grande representante do Capital mundial, Obama, avança sobre territórios árabes, deixaria para 1º. de janeiro de 2013 as críticas azedas que pudesse endereçar-lhe, a ele, à irmã e Ana Paula. Félix, o irmão e as irmãs foram alfabetizados em Urupês por minha sogra, Alice Durante, e meu sogro, Paulo Gasparin, foi amigo de seu pai. Começo por essas questões miúdas porque elas deveriam fazer parte da cartilha pessoal do bom-senso das criaturas humanas.”Leviano”, adjetivo colado por Félix na testa do prefeito, significa “insensato”. A atitude imprudente ou precipitada é o sinal diário com que Afonso Macchione apresenta-se ao corpo administrativo e à população da cidade. Lembro-me muito bem duma manhã, no 6º. mês da administração inaugural, quando ouvi dum cidadão da confiança do prefeito que o poder havia-lhe subido à cabeça. Isto foi há muito tempo. O tempo é sempre algo misterioso, pense você em Kant ou nas vivências pessoais com as intermináveis esperas na ante-sala dalguma figuraça do País.Na década dos 70s, fui professor de Literatura e Língua portuguesa do prefeito, no velho Barão. O moço era tímido, encapsulado e calado. Algo mudou no adulto? Afirmo que tudo nele continua como antes, apesar da fortuna acumulada. Observação crítica para terminar a aulinha:de lá para cá, ele desenvolveu o síndrome de La Tourette. Como a famosa marquesa da França, ele adora dizer palavrões no gabinete e em público. No domingo, 13, postado como guardião da segunda urna do PSDB, ele caminhou na minha direção e na direção de Roberto Jorge, ao meu lado, gritando o nome da matéria-prima da vida com que os machos contribuem para a propagação da espécie. À nossa volta, estavam sua mulher, os filhos, as senhoras secretárias e outras pessoas do entorno do prefeito. Síndrome da La Tourette ou coprolalia é o nome da manifestação clínica.
A bela Ileana e a eleição do diretório A bela Ileana votou na eleição do diretório. Vestiu-se a caráter: batom e cabeleira empoada. Domingo, 13. Disseram-lhe: Caminhe escada acima, porque no térreo você não saberá como decifrar a cédula. Ileana não entendeu o significado de “decifrar a cédula”: era meio lenta de raciocínio e a expressão não estava no Código civil. Equilibrou-se no salto alto, atravessou o pátio e entrou num corredor estreito formado por marmanjos adeptos do térreo, os terráq ueos. Ao avistar o secretário-aviador, ela o inquiriu: “Seu lugar não é lá no alto, onde moram os pássaros ligeiros, na imensidão do céu azul, o espaço da liberdade? A liberdade é azul.” Ileana repetia palavras, frases, notícias de bulas médicas, às vezes acrescentava algo, mas o homem não estava para prosa e Ileana fechou a matraca. Dois passos, três e a turma do corredor polonês, todos ao mesmo tempo, falavam à direita e à esquerda “Vote em nós porque esse é o caminho da salvação e não o da estrada incerta”.Imitavam a voz empostada dos locutores de rádio. “Devo ter-me enganado de lugar de destino. Acho que vim parar numa seita de fim de mundo, porque, pelo que ouço, pregação escatológica é o que não falta.”Escatológica” Ileana ouviu na infância dita pelo avô. Magricela e quase cai-não-cai, ela forçou como pôde passagem à esquerda, mas um tranca-ruas de mais de metro e oitenta a pegou pelo cano do braço e a puxou, não para si, mas para o famoso térreo. Estava longe de ser bonito, mas ainda assim não era de se jogar fora. Foi então que ela se lembrou do velho expediente ensinado pela mãe: sempre que a coisa ficar feia, grite, estrebuche, desmaie. Ela desmaiou de modo ensaiado, foi parar nos braços do Zé Garcia, enquanto o Pedro Macchione providenciou-lhe os sais de ocasião. Aromáticos, à base de eucalipto. Como é bom ser socorrida por criaturas prestativas e politicamente capacitadas a administrar a cidade por 4 ou 5 gerações.Meu avô adorava o monarca. As eleições estão muito animadas e bem aqui, em frente do rio e do terreno do terminal de ônibus onde meus pais vinham namorar.Pena que não haja sombra nesta província. “Se eu fingir mais um pouco”, pensou Ileana, “eles me conduzirão para casa de ambulância ou Hyundai.”Qual o resultado da votação? Ileana era meio atrapalhada da cabeça. Ela pensou: “A chapa 1 ganhou da chapa 2 e a chapa 2 ganhou da chapa 1, mas não houve empate”.” Política não é o meu forte, o meu negócio é a Lei, doa a quem doer. Quanto mais dura a aplicação da lei tanto mais saudável ela se torna.” !
Réquiem para a Fafica Tudo o que você disser da FAFICA será pouco ou muito. Pouco porque não tínhamos faculdade numa época em que Rio Preto dava o melhor de si mesma para cuidar do Ibilce, antigo núcleo isolado da USP; muito porque ela acabou como doente crônico, porque a direção tornou-se maior que os cursos e os alunos que o freqüentaram; pouco porque por ali passaram, dentre outros, Orsini Carneiro Giffoni, Diva Madeira, Joseph-Pierre Onckelinx e Paschoal Roberto Turatto, de quem a precária memória da cidade não guardou lembrança; muito porque ela, ao sair do prédio do velho Lyceo Rio Branco, foi para o ermo da Washington Luís, sem ônibus ou acesso coberto de pedregulho; pouco porque ela perdeu o sentido boêmio da Cultura, o único, talvez, que mantém de pé, e juntos, professores e alunos, depois do giz e o apagador; muito, porque ela se parece com o famoso cachorro que caiu do alto do caminhão de mudança e não sabe onde está; pouco, porque, ao encostar-se na administração pública, ela vendeu a alma ao diabo e a irresgatável liberdade; muito, porque ela não soube ir além do que alcançara nos primeiros dias de 1967/68; pouco, porque naqueles dias de chumbo ela despencou 7 de Setembro abaixo, subiu a Brasil, vela na mão, e mandou a ditadura caçar sapo com bodoque; muito, porque direção que se respeita e é respeitada pela comunidade faz do sonho o trampolim para o Amanhã e, pelo que se vê, ela não terá amanhã. R.I.P., FAFICA.
Criança espancada
Dizer que o vereador não precisa saber tudo é pura bobagem, porque o vereador pode não saber coisa alguma e ainda assim continuar a exercer o mandato. Logo, a questão é de outra ordem. O negócio do vereador não é a coisa mental, mas algo que possa ocorrer ou que tenha ocorrido abaixo da linha do Equador e que, porque as coisas são desse modo num país estapafúrdio, ele ignora, pela simples razão de jamais ter-se deitado (e não vai-se deitar) no divã do psicanalista. Vereador algum, aqui ou em Xiririca da Serra Talhada, livra-se da criança que foi, das coisas de família, da relação com o pai (ou a mãe, ou então com ambos), irmãos, escola & outras criaturas ou espaços que se constituíram nos fundamentos de suas memórias soterradas pelo esquecimento estratégico, de acordo com Sigmund Freud que, no meu modo de entender, deveria ser leitura obrigatória ao futuro edil. Para Freud, homem que se deu conta do simbólico, e que muitos idiotas até hoje não querem reconhecer, “criança espancada” é uma situação que “está ali”, quer dizer, como a história de “você crê em Deus?” (que aparece na mesa de bar sem saber por onde entrou e por que entrou), ela vai-se materializar sempre que a situação vivida trouxer à tona a outra soterrada.A vivência recente remete à anterior, esquecida no fundo do poço do inconsciente. Nesse caso, deverei espancar uma criança porque assim vou ultrapassar/superar o trauma masturbatório pelo qual fui punido na infância. Espancar uma criança, afirmou Freud, provoca em nós satisfação autoerótica. Qual a relação entre o objeto quebrado pela criança e a sova que lhe aplicamos. Nenhuma? Não, a relação é psicanalítica e não tem nada a ver com o preço do objeto ou com o fato de ser ele algo que prezo muito porque ganhei de minha nonagenária avó. Como é que as crianças vão-se proteger dum adulto espancador?
A nossa não é a terra da mocidade alegre Catanduva virou cidade sitiada. Duvida? Praça da Matriz, Praça da República, Terminal Rodoviário, Paço Municipal, entorno da Câmara municipal, caminho de lama para a FAFICA, estátua do Padre Albino semicaiada, MIS, biblioteca pública, salão de exposições da Estação Cultura, teatro municipal, parque infantil do zoológico,terra e mais terra removida ao longo do Rio São Domingos. Será que a Profa. Kliass, competente que só ela, viu fotos do barro vermelho que dia após dia desce pela calçada da Rua Brasil, Pará e Minas Gerais? Quando o jovem encantado pela formosura da namorada prepara-se para o encontro de sábado, ele se apruma ou se veste de modo mal ajambrado? Será que alguém do entorno do Sr. Prefeito chamou-lhe a atenção para a esquisitice do gesto repetitivo ou o pessoal teme gritos seguidos de murros na mesa? Borelli era mais escolado que Afonso Macchione ou Antônio Stocco? O primeiro foi colega de ginásio de meu pai em Taquaritinga e nos contou que os conhecimentos do ex-prefeito eram parcimoniosos.O segundo aprendeu com a vida, o sítio, o café e o gado. Sabemos que Afonso não ginga nem que a vaca brava corra atrás dele no campo, mas pôr fim ao carnaval da cidade é coisa para doido do Mahatma não botar defeito. Será que alguém perguntou ao prefeito por que ele só consegue pensar no Carnaval como coisa oficial? Oriente, limpe a cidade, convoque comércio e indústria, vá à Vai-vai e contrate foliões treinados para nos ajudar. Contratinho assinado, preto no branco, comissão para ninguém a não ser a comissão de frente. Mocidade alegre? O povo está bem jururu, prefeito!
Julian Assange & o mundo largo, a administração local & o pequeno mundo Julian Assange, a criatura do Wikileaks, com sua ampla visão da coisa democrática, serrou o trono de Mubarack e o homem despencou; a seguir, ele iniciou o processo de sabotagem do império de Qaddaffi e o imperador ensandecido está cai não cai. CTV está desligada do mundo contemporâneo, da grande Política, da Cultura e do desenvolvimento econômico, razão por que Assange, a não ser pelo fato de ser a cara do Ricardo Hummel, não tem o menor significado para nós. Não tem importância, porque, de uns tempos para cá, armamo-nos com a paciência de monge budista e vamos aguardar que as coisas mudem. Todavia, advirto aos déspotas que se cuidem, porque o mundo eletrônico vai derrubá-los. Não há mentira que perdure por mais tempo que alguns segundos em nossos dias. Os fatos correm com a velocidade do corisco e a língua do déspota torra e se despedaça como se o raio da desgraça a tivesse atingido. Ainda não podemos contabilizar todos os mil detalhes da visita do administrador ao governo do Estado, porque o que ali se disse e o que antes foi sussurrado pelos estreitos corredores não chegaram até a província. Mais algumas horas e tudo terá sido traduzido. Enquanto a hora não chega, revelemos o que a foto não diz ao leitor apressado, mas que o poço cibernético do computador mostra. A foto foi feita no dia 24 de fevereiro último, às 19 h, 54 min e 2 seg, numa Canon EOS 7D, com flash, comprimento focal de 21 mm e abertura do diafragma de 1/50 seg. Registrou-se a cena, posterizou-se o encontro, mas ainda nos faltam as falas do roteiro, um roteiro que as chuvas prolongadas encharcaram e que o sol breve vai enxugar e esfarelar.
Carta aberta ao amigo Ivo Pinfildi a respeito dum possível e desastroso estacionamento subterrâneo na Praça da República Em 1918-1919, em dois anos, portanto, a gripe espanhola matou de 20 a 40 milhões de pessoas no mundo todo. Os números discrepantes devem ser atribuídos à imprecisão dos registros funerários, os mesmos, talvez, que os cariocas viram por ocasião das chuvas serranas do RJ. A flu ou influenza foi tão devastadora, que matou mais gente que a peste bubônica de 1347 a 1351. Nos Estados Unidos da América, onde tudo começou, em seis meses, ela liquidou 675 mil criaturas. Você sabe: não havia recursos médicos, razão por que a população lançava mão de tisanas caseiras. Recomedava-se o uso de máscaras hospitalares, desacreditadas por grande número de pessoas. As crianças norte-americanas cantavam, atrás das janelas de suas casas: I had a little bird,/it’s name was Enza./I opened the window,/and in-flu-enza. Claro que a gripe, janela aberta ou fechada, entrava na casa de qualquer modo. O que o Sr. prefeito, no afã de mandar fazer estacionamento subterrâneo (como os riopretenses), ignora, porque isso é atributo do pesquisador, é que, no canto da praça com a Rua Sergipe e ao longo desta rua, até o atual SENAC, abriram-se valas e mais valas onde se enterraram os mortos da gripe de Vila Adolfo/Catanduva. Eram tantos os que morriam ( e não havia caixões em número suficiente para abrigar os corpos), que os coveiros, às pressas, abriram covas rasas e nelas atiraram os cadáveres ainda quentes, a seguir cobertos de cal. Caso o Sr. prefeito não acredite na informação, recomendo-lhe contratar serviços competentes de especialista em arqueologia, exumação de ossos de cadáver e pandemias. Não sou entendido em gripe espanhola, mas afirmo que o estacionamento subterrâneo poderá ser a pá de cal da segunda gestão de Afonso Macchione, um homem que deveria desvestir-se da soberba. Por essa e por outra s, Ivo, é que, em 2005 e 2006, recontávamos a história da cidade na con/finada Estação Cultura!
Henri Bergson e a (in)cultura local a Henri Bérgson explicou o conceito de duração ou permanência, quer dizer, de tudo aquilo que vemos ou ouvimos algo fica registrado em nossa memória. Não fosse isso, estaríamos quase sempre diante dum zero absoluto ou então como se jamais tal fato - uma tela, um filme, uma exposição de Arte - tivesse sido exibido antes. Se isso fosse possível, seríamos criaturas descebradas, incapazes, portanto, de comparar o chope de ontem com o de hoje ou o romance Senhora, de José de Alencar, com São Bernardo, de Graciliano Ramos. Também não poderíamos dizer: "Ali, em lugar do horroroso caixote do Banco Bradesco, ficava o Cineteatro República". O cinema incorporou-se à nossa lembrança das coisa como traço de memória.O República foi posto abaixo, mas está incrustado no lobo temporal de quem o conheceu. Se você mostrar ao gato bem pequeno um pente e, a seguir raspar, como se dedilhasse violão, os dentes do pente, o felino ficará vivamente interessado no ruído e no objeto. Repita a ação várias vezes, de tal modo que a cada raspada você esconda por uns instantes no alto da mesa o pente. Chegará um momento em que a desaparição do pente prolongou-se tanto, que o gato saltará até a mesa ou então desistirá do objeto. Como é que o gato sabia do pente se você o escondia por uns instantes? Pela permanência do traço na memória do gato. Em CTV não temos o direito de manifestar essa ação rudimentar, porque não temos atos de cultura que nos estimule. Alguém tem ouvido por aí Beethoven, Mozart ou Villa-Lobos?Você ouviu falar em Paulo Pasta, Feres Khoury ou Júlio Minervino?Você leu o último romance de Cormac MaCarty? Já leu o manaura Milton Hatoum ou Raduan Nassar que estudou no Barão e foi traduzido para várias línguas? A Estação Cultura disse alguma coisa sobre o 110º. aniversário de Clark Gable, ou o 80º. de James Dean? Em CTV. Bérgson passaria o dia bêbado, louco varrido interessado apenas em empinar papagaio numa pracinha vazia do Solo Sagrado, ou então em oferecer cenoura ao bichano.
O significado do partido político O partido é maior que a soma de seus membros: nele deveriam fervilhar idéias e as idéias teriam de transformar-se em propostas, as quais, por sua vez, seriam postas em prática. O partido só se mantém de pé se o seu alicerce for constituído por teoria revolucionária a que irá seguir-se a práxis. O partido não é o clube privado dos amigos do carteado nem a casa da mãe Joana. O partido não é o mocó nem o cafofo do déspota e muito menos o abrigo da prancha para o salto na piscina aquecida dos manipuladores do poder. Os gritos não funcionam nos corredores bem ventilados do partido. No partido a cara amarrada é remetida por sedex à bisneta de Sigmund Freud: moça meio sadomasoquista que adora perfurar com broca o cérebro do dono da cara amarrada. O partido não é banco nem subinstituição monetária em que o devedor é pendurado de cabeça para baixo numa árvore seca até que seus testículos arrebentem ao sol da canícula como mamona. O partido é o lugar dos que de fato cresceram a ponto de pensar que a coisa social não é o clube sociável. O partido não é a estrada para a glória: se do lado de fora bota de cano alto e tanque esmagam a Liberdade, no interior do partido a coragem e a disciplina para a luta permanecem em vigília. O cidadão Kane não precisava de partido: dia e noite ele aspirava ao plus-ultra, de pé, nas costas do mais fraco. Para os membros do partido os indivíduos anônimos são candidatos a cidadão e os cidadãos deveriam merecer a plena atenção de quem, pelo partido, alcançou o poder. O poder é efêmero, o partido permanente. O PSDB é avatar do velho MDB e ambos foram fundados por pessoas sérias, dotadas de coragem e amantes do intelecto. No partido, não lhe basta o catecismo. O partido devota ódio profundo ao arrogante porque arrogante é o que não roga, mas se impõe. O outro é minha sombra, meu contraditor, meu adversário. Nosferatu não serve ao partido, porque sob tempestade em noite escura ele só vê um pescoço cor de pêssego e o sangue morno que pulsa naquelas veias. O partido não precisa do cidadão Kane que, apesar de ter alcançado o pleno domínio de seu reino absurdo, ele sonhava com a infância, a neve, o aconchego familiar. O partido é o espaço da maturidade.
Nobody knows the trouble I’ve seen. Nobody knows but Jesus, ou os descaminhos da (in) cultura local Nos tempos do prefeito Borelli, Cultura era, quando muito, a festa da boneca do café. Curioso, porque a cerimônia, deprimente, lembrava os tempos em que, nos EUA, o negro no palco aparecia coberto de graxa preta para parecer negro. Com o Righini, instituiu-se o conselho municipal de cultura que, de acordo com o previsível, não decolou do decreto rumo à realidade física. Com Warley, vimos a moveable feast: o doce, as moedas, os gibis, a viola foram às praças e a moça feia debruçou-se na janela para ver a banda passar. Dona Gilda Brandi foi nossa Maria Callas e conduziu as coisas com conhecimento e dignidade. Redigi o programa de cultura dos Sahão que ficou entaliscado na memória dum velho computador quando o Carlos Eduardo nocauteou Félix. Quando os Sahão, por fim, instalaram-se na prefeitura, reiventaram as oficinas culturais de modo ágil, eficiente e correto:mobilizaram as comunidades eclesiais de base, pastores, monges trapistas e quem mais dispôs-se a instrumentalizar criaturas que pudessem ganhar uns trocados com a venda de bordado e cesto de papel enrolado. A Estação Cultura pôs de cabeça para baixo o que até então se fizera tanto é verdade que, na inauguração, o Sr. Prefeito estava à porta, diante da velha Rua Rio de Janeiro, sorridente. Como a velha estação não podia mais transportar pessoas, agora ela iria levar o povo à Cultura, reconstruir a história da cidade, ouvir música de elevada qualidade, aprender a ver fotografia. Nos escritórios do SESC, com Ana Canoso, José Luiz de Oliveira e Evandro Ceneviva, rabisquei um projeto para 2005, 2006, 2007 e 2008. Por dois anos, pudemos cumpri-lo, até que o Evandro foi para Campinas. De repente, nossa sala do famoso 5º. andar ficou acéfala, o pessoal agitou-se e eu fui bater à porta do prefeito para lhe dizer que precisávamos de coordenador. Duas horas depois ele voltou com Lígia Torquetti Ferreira a tiracolo e eu enfiei a viola no saco e fui tocar em Cafarnaum. Se o leitor não souber, aí vai: você só poderá tirar dum cabo de vassoura um boneco de madeira, se o boneco estiver na porção temporal do seu cérebro, quer dizer, até mesmo para arrancar do fundo do poço a tia Elisa, você precisa dum conceito e saber como manejar corda e balde. Por que é que o Sr. Prefeito esconde o rosto, tapa a boca e o ouvido a essa questão tão óbvia desde os gregos há 3000 anos?Fui seu professor, mas ignoro a resposta. O mais honesto seria confessar: odeio a Cultura e os intelectuais. Para mim só existe a obra! Se isto for verdade, respondo:Mãos à obra, prefeito!Todavia, aí vai uma advertência: Zé Alfredo fundou a República do Clube de Tênis e acabou só; você fundou a República dos Engenheiros e poderá ter o mesmo destino!
Diário da velhice
Naqueles dias hoje bem amargos à lembrança
A norma jurídica e a atual administração
Caso você seja uma dessas criaturas dispostas a crer na aparência das coisas, a atual administração pública da cidade, no momento enclausurada no segundo tempo do segundo mandato, cumpre à risca a elaboração e a aplicação da norma jurídica de inspiração positivista, quer dizer, a Lei faz-se para todos independentemente de saber se o calo de Pedro ou Manuel doem mais do que o dos demais cidadãos. O administrador e seus coadjutores exibem do alto do prédio ribeirinho parágrafos, colchetes, vírgulas, plurais e vocativos de lei como o guardião do castelo do checo Franz Kafka. Essência e aparência são vocábulos antitéticos, ainda que ambos tenham por raiz o qualificativo “ência” que diz respeito ao ser. Essência implica no afloramento do ser que tem de ser puxado para fora (ex-), manifestar-se; aparência implica num paralelismo, num ser fantasmagórico, mas que, no entanto, simula ser o ser verdadeiro. Sou aquilo que pensam que eu sou, mas também poderia ser outra coisa ou coisa alguma. A vida não é fácil aqui na terrinha!Nobody knows the trouble I’ve seen. Assim como as novelas da Globo perderam o poder de convencimento ao transformar o irreal literário num real fisiológico que provocasse no espectador verdadeira emoção, as administrações públicas, há muito tempo, armam-se fora do poder e ali elaboram um roteiro noturno, soturno, labiríntico a ser posto em prática no tempo de mandato. O poder público está comprometido com um tal grau de desejo de potência, que os fundamentos da República deveriam, com urgência, ser repensados quanto à questão da representação pelo voto.Assim como não há mais voto consciente, também não se vê mais exercício de poder fundado na lisura ética. Outra coisa muito estranha, se não patológica, é que, depois de sentar-se no gabinete, o administrador passa a agir como autor abilolado num estranho papel, distante porém do que ele foi até então. Borelli e Stocco foram Borelli e Stocco fora e dentro do poder, ainda que o segundo embarcasse na malsucedida missão de conduzir Adhemar de Barros para o palácio do Catete. A atual administração da cidade jura em cruz que tem na testa a norma jurídica estampada e que, assim como os norte-americanos juram no tribunal com a mão direita sobre exemplar da Bíblia, nossos condutores são fiéis tanto às agruras contigenciais quanto às verdades transcendentais. “Quem não estiver comigo estará contra mim.” Para os fãs da velha Álgebra, aí vai a equação da norma jurídica e o convite para refletir a respeito da peça do carro que funciona mal ou que poderia funcionar perfeitamente bem:
Do mau humor do homem público fez-se o bom humor dos cidadãos de CTV Se num dia desses CTV vier a reencontrar as trilhas que nos levarão ao futuro promissor será pelo humor. Os milhares de e-mails que o blogue passandoalimpo.com recebe do mundo todo são provas evidentes de que, para continuar vivos e mentalmente sadios, resgatamos o humor.Leiam o verbete “Catanduva” na Desciclopédia. Talvez o resgate tivesse ocorrido numa terça-feira de muita chuva, raios e trovões ( com o Rio São Domingos disposto a brigar pela devolução do nome Japurá que os índios caiuás lhe deram um dia), num centro espírita, quando, à cabeceira, depois de uns tremilicões, o médium passou a falar com a voz nasalada do Prof. Geraldo Correia que, dentre outras cobranças, lembrou que seu livro Minhas piadas dos outros deveria ser reeditado e que alguns exemplares, encadernados em couro de porco, deveriam ser enviados às autoridades públicas desta cidade quase-infeliz e de ocorrências públicas impublicáveis. O homem público de CTV, há tempos, mergulhou-se numa crise de mau humor e dela não quer sair nem com reza brava. O homem público de CTV pensa que tudo o que está à sua volta é dele ou então que deveria ser dele.Ele é o Moloque da Bíblia. O homem público de CTV não quer ser contrariado: ele está acima do Bem & do Mal. A camisa que ele veste foi comprada em São Paulo, o chope que ele sorve é do Pingüim de Ribeirão Preto, o sapato de camurça que ele veste foi adquirido em Franca, o cinema que ele freqüenta fica em São Carlos, o banco em que guarda os seus caraminguás localiza-se na Flórida, a carne que ele devora é mastigada em Buenos Aires. O homem público de CTV é internacional. Foi aqui e não noutra parte do País que o PT aprendeu a importância de chamar-se Honesto e experimentar as delícias do poder. Ao pensar no que CTV iria virar, depois de acender o famoso charuto, Winston Churchill afirmou para Hitler e os ingleses gravarem a ferro e fogo em suas circunvoluções cerebrais: “Uma piada é coisa seriíssima”. Você acha CTV patética? Eu também. Todavia, ainda nutro a esperança de que o riso vai nos salvar do buraco da José Nélson Machado, do evaporador do posto maquiônico, do cemitério maquiônico, da água maquiônica, do lixo maquiônico, da biblioteca maquiônica, da Estação Cultura maquiônica, da Rua Ceará maquiônica, das pracinhas maquiônicas. Leu Mark Twain? Anote: “Tudo o que for humano é patético. A fonte secreta do humor não é a alegria mas o lamento. Não há humor no céu”. No céu? Por que é que o homem público de CTV quer ser levado a sério? Ao acordar com o pé esquerdo amanhã, não se esqueça de que ainda podemos ler o blogue passandoalimpo.com, por onde respiramos, refletimos, nos informamos sobre tudo aquilo que seria de nós suprimido. Quando o pesadelo passar, poderemos nos sentar na pracinha sobrevivente e reatualizar a teoria do caos ou pendurar na parede da sala aquele sumidouro que ilustra o verbete “Catanduva” na Desciclopédia.
A cerca
Now the Stone house on the lake front is finished
A cerca/Carl Sandburg/Benatti
O rio & a engenharia Não adianta o administrador insistir porque, sem o estudo da topografia da cidade e o comentário do pesquisador, ele continuará a dar murro em ponta de faca, seja a faca do Município, do Estado ou da Federação. O nome cristão do rio que divide a cidade em duas seções físicas não diz coisa alguma de sua natureza, porque tal nome tem a ver com a devoção ao santo e o santo não sabia lhufas de hidrografia. Os caioás que habitaram a margem direita do Minguta e o terreno ascendente na direção do Cachorro Sentado o chamaram de Japurá que, em Tupi, significa mentira. Por que? Porque o rio, muito largo, espraiava-se dos fundos da rodoviária até, mais ou menos, os Bombeiros, local do último acidente, e tanta era a água, que o índio não sabia onde, ao cruzá-lo, iria meter os pés. O rio escondia seus conteúdos, imenso charco. No ponto exato dos Bombeiros, morava um criador de porcos, cujos animais chafurdavam na lama do rio, na época protegido por mata ciliar, em particular a pupunha que atraía o macaco-da-meia-noite, um dos significados de Catanduva, nome do angico. O local é uma baixada e ali, em determinados dias do ano, o vento sopra com vigor.Chuva, vento, charco e engenharia, combinação perigosa de efeitos negativos bastante prolongados. O pai de José Nélson Machado, espanhol que sabia das coisas, tanto é verdade que construiu o prédio central da Santa Casa de Misericórdia/Hospital Padre Albino, o Cinetheatro São Domingos/Cine República, o Colégio Nossa Senhora do Calvário e o Ressurreição, um dia, ao passar por ali, viu um cidadão que cuidava de erguer um galpão. O espanhol observou com calma e sapiência, virou-se para o proprietário e disse: O prédio vai cair na primeira ventania! O homem duvidou, mas o prédio veio abaixo. Corredor de vento e terreno pantanoso.O leito do rio assenta-se sobre terreno de turfa, algo parecido com o recheio entrançado das velhas poltronas, sobre a qual se construíram prédios e mais prédios, prefeitura, câmara, fórum e outras edificações. A turfa não agüenta massa de concreto do peso que insistiram em lhe dar. Some-se à incongruência, a questão da impermeabilização do solo por asfalto que impede que as águas volumosas do Cachorro Sentado infiltrem-se no solo ou sejam conduzidas pelo Minguta (até o S. Domingos/Japurá), um homem que andava descalço, calças arregaçadas até a canela, mas que conhecia a cidade de cabo a rabo. Em 1921, Minguta foi velado num prediozinho modesto, na Praça da República, ao lado do Cinetheatro São Domingos. Há 90 anos, em dias de muita chuva, ele pode ser visto por ali, dedo apontado para o rio e as seguintes palavras sussurradas pela boca desdentada: “Modéstia e caldo de galinha não fazem mal a ninguém!” Todavia, quem paga a conta do estrago é o cidadão que vive às margens do Japurá. Acidente “premeditado”? Afonso, estou muito preocupado com o modo como você contaminou religiosamente as palavras.
Culpa & delito Por muito tempo, acreditamos que o inconsciente fosse uma espécie de inferno instalado no corpo, um apêndice, da mesma natureza do fígado ou pâncreas, de tal modo que a doença desses órgãos resultasse da culpa experimentada por cada um de nós em nossos conflitos com os superiores.Os pecadores merecem o sofrimento. Nesse sentido, o inconsciente seria algo concreto, como uma pedra, uma pedra quase sempre recoberta de limo escuro apreciado por animais peçonhentos. “Essa mulher é uma víbora”, diz o marido furioso. “Ela está acabando com o meu fígado!” Ainda que, em sua santa inocência, você possa pensar que usa, como quer, essa ou aquela palavra, na verdade quem a escolhe ou vai buscá-la no acervo-inconsciente é algo em você que está fora de seu controle racional, de engenheiro ou poeta. O inconsciente é feito de palavras, que nele se acumularam desde os primeiros dias de vida. Numa família de beatos ou carolas, o vocabulário da criança e, mais tarde, do futuro adulto faz-se de beatices. A rigor, um administrador que se tem na conta de racionalista não poderia dizer que aumentará o preço da taxa básica de água porque o cidadão é “culpado”. Se disser isso, estará afirmando que a sua ação é uma resposta ao “pecador” e que ele, na qualidade, de pároco ou autoridade religiosa, deverá infligir ao infrator pesado castigo. Em Inglês, culpa é crime ou delito, e, nesse caso, noutros tempos, o delituoso poderia ser desterrado. Gastou muita água, então sai da área de abrangência do Aqüífero Guarani e vá para o Deserto do Saara, beduíno duma figa!Está na hora de o homem público, com urgência, ler Nietzsche. Na Genealogia da moral, o bom torna-se mau e o mau metamorfoseia-se em bom. Não há culpa ou pecado sem dinheiro. Quem precisa dele, o homem bom e sofredor, vai ao agiota, o homem cruel,e toma o tutu emprestado. Passado um tempo, o homem bom deverá devolvê-lo com juros e correção monetária. Enforcado, no dia aprazado, bate à porta do homem cruel e fala de seus apertos. O agiota grita, esbraveja, pergunta-lhe se o seu suado dinheirinho é capim e toma-lhe a propriedade, a bicicleta, a escova de dentes, e o devedor, inadimplente, vira um vagabundo, enquanto que o agiota ganha foros de homem santo que se sacrificou por um traste. A água do Aqüífero Guarani, armazenada embaixo dos seus pés, bem no lugar em que você toma banho de 40 minutos, vai-se esgotar dentro de 200 anos, portanto lá pelo ano 2200, mas é melhor prevenir do que remediar, porque depois desse ano longínquo será melhor você se mudar para a Patagônia. E preste atenção: não peque mais contra os mandamentos da SAEC!A SAEC tem razões que a própria Razão desconhece.
A gramática dos gestos e a questão da mentira no espaço público Num certo sentido, o mundo das figurações ou representações é feito de mentiras: mente o ator ao emprestar à personagem corpo e alma, mas também o cândido espectador que se emociona diante da fraude como se fora verdade suprema. Mentimos ao dizer que tudo vai muito bem, quando, de fato, estamos preocupados ou quando dizemos amar a pessoa a quem devotamos desprezo. Todavia, se esse mundo representacional é puro embuste, o político, travestido ou não de administrador, não poderia mentir ao combinar com seus pares ação farsesca que só irá cumprir-se em detrimento da comunidade. Vê-se, portanto, que a Política deve revestir-se de Ética. No caso do vereador, ele não pode esquecer-se de que recebeu dos cidadãos um mandato para defender na tribuna os direitos da maioria, nos quais se incluem o de seu pai, mulher e filhos. O tempo e o espaço do vereador pertencem ao conjunto dos cidadãos. O vereador deve estar atento às novas informações tecnológicas que dobram de volume a cada 2 anos, mas também à grandeza ética do papel que lhe foi atribuído. Para isso, ele se obriga a dominar a parte formal da linguagem e também a gramática das emoções ou das micro-expressões faciais, fabuloso domínio que lhe dará a certeza de que o colega mente ou fala a verdade. A criatura humana tem cérebro e um corpo em que se colam apêndices sintáticos incapazes de mentir quando o dono deles mente: olhos, nariz, orelha, boca, dedo. Se o leitor der-se ao trabalho de, através do Google, digitar no ngrams.com a palavra lie/mentira, verá que ela esteve na crista da onda no século XIX, por volta de 1810-20, triunfo da burguesia, européia ou nacional, incumbida, graças ao acúmulo de capital, de mandar e obrigar ao trabalho estafante. Mentiram escravos e patrões. No seriado norte-americano, The Lightman Group vai à caça da pseudolalia ou da mentira patológica sem descanso, atento às expressões físicas de nojo, ódio,medo, tristeza, contentamento, desdém. Aprenda com Lightman a observar o movimento do supercílio, pálpebra, lábio ou zigoma, se o queixo se eleva, se o lábio torce-se à esquerda ou à direita, se a língua é posta para fora, quando o pescoço se dobra etc. Todos mentem. Iago mentiu a Otelo sobre Desdêmona, Cássio mentiu no leito, Desdêmona mentiu para Otelo sobre o lenço e Cássio e Otelo mentiram, em Veneza, ao dizer que eram estrangeiros. O leitor também tem o direito de mentir, mas não o de ser ingênuo ou desinformado.
A câmara municipal, os mistérios da linguagem e a revelação das expressões faciais Há muitos anos, um pouco enfarado com os livros, fui à câmara local e o que vi guardou-se comigo até hoje, exemplo fabuloso de substituição da comunicação tradicional através da boca pela linguagem corporal. O corpo do irreverente orador falou de maneira clara e escatológica o que ele de outro modo teria tido dificuldade em comunicar pela boca. Foi assim: ele abaixou o microfone até um pouco além do sul da cintura, virou-se de costas e soltou um tiro de canhão que, retransmitido pela ZYD-5, foi captado por quem ouvia a sessão no recesso doméstico. Até mesmo o seriíssimo Freud teria gostado de ouvir a manifestação visceral do nobre vereador. Diante do resultado da última sessão, cuja votação reconduzirá à presidência quem por duas vezes ocupou o trono, proponho aos tímidos edis que gostariam de ter dito algo, mas que, com receio de parecer maledicentes, ou insatisfatórios, que assistam à série norte-americana LIE TO ME/ Engane-me se puder. O edil poderia ocupar-se com os episódios nas férias praianas, comprar filmadora, treinar com os filhos e a mulher e voltar às sessões de 2011 ultra-afiado na percepção das minúcias da comunicação corporal. Assim, não precisariam mais bisbilhotar, informar-se por celular, colher fofocas sobre encontros no boteco ou na esquina, porque Cal Lightman/O iluminado,nas muitas horas de duração dos episódios, vai deixá-los craquérrimos em distinguir verdade de mentira, tramóia de ação correta. A figura interpretada por Tim Roth foi inspirada em Paul Ekman, pioneiro no estudo das emoções e expressões faciais e que foi considerado um dos maiores psicólogos do último século. Ekman, dentre outros, publicou os livros What the face reveals/O que revela a face e Why kids lie: how parents can encourage truthfulness, isto é, Por que as crianças mentem: como podem os pais encorajar os filhos a ser verazes. Poderíamos propor a Ekman escrever um volume para políticos brasileiros. Catanduva é uma fábula contada por Esopo com pitadas de Rabelais.
A cidade e os velhos Caminhada de reconhecimento topográfico e caráter humanitário, num dia desses, poderia ser feita pelo administrador público e componentes da câmara municipal. Nada de tapinha às costas ou carrão importado, mas olho no chão, percepção das alterações no batimento cardíaco ou da pressão muscular das pernas, e do encurtamento do fôlego. Os ousados caminhantes poderiam 1º.) subir a Rua Brasil, da prefeitura à Praça 9 de Julho; 2º.) seguir pelo contrafluxo do Rio São Domingos, dos fundos da rodoviária aos Bombeiros. Celular à mão, fotografariam à vontade: olha o desnível da calçada!Cuidado com o buraco do esgoto!Depois, no café com bolo de abaxaxi, à tarde, trocariam imagens e conversariam sobre suas fabulosas descobertas acerca da geografia e o novo urbanismo da cidade. CTV é feita de talvegues: terreno ascendente, platô, terreno descendente, córrego, em qualquer porção da urbe. Quer isso dizer que, para palmilhá-la a pé, você carece de muito vigor e que, apesar de ter corpo atlético, o carteiro, Rua Florianópolis acima, só alcança a Rua São Luís a pé, bicicleta à mão. Como a cidade é louca por automóvel e sofre de gerontofobia, o que fez o administrador? Transformou as ruas em pistas de corrida para que a massa automobilística fluísse e fluísse ayrtonsennamente, dia e noite, rumo a São Tomé das Almas Penadas. Caminhe a pé da Farmácia Coração de Jesus para o Hotel Presidente, pela esquerda ou direita, ou tente passar do INSS para o terminal rodoviário: se você não correr, será atropelado pelo mautorista e homicida contumaz. Para o administrador e o IBGE, o pedestre não existe e os idosos incomodam bastante. O administrador e a câmara não andam a pé, porque isso é coisa de pobre.
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