O horóscopo chinês, Lula, Serra, Dilma, Alckmin & outros temas

Lula é do signo lunar do galo. Segundo os chineses, ele é o herói impávido, falastrão e observador perspicaz que gostaria de converter o mundo ao seu modo de pensar. O símbolo da França é o galo Chantecler que acredita ser responsável pelo nascimento do Sol, a cada dia do ano. Ele estará sempre certo em tudo o que diz ou faz.Lula, ser divino, tudo provê. Você terá apenas de comer, dormir, jogar buraco, deitar papo fora. Lula nasceu em 1945. José Serra nasceu em 1942 e é do signo do cavalo, criatura impetuosa com grande poder de persuasão. Com ele e como ele, você terá de suar a testa e a camisa, dar um duro danado. Com ele, lambisgóia não tem vez. Não se iludam: ele insiste em seus temas preferenciais, mas tem escondidos em algum lugar obuses para a hora aprazada. Dilma, de 1959, é o porco, a eterna vítima dos embrulhões. Ela gosta de ouvir enquanto não puder mandar. Crente de que levou Serra à lona, Lula tenciona fustigar Geraldo Alckmin a fim de transferir-lhe os votos para Mercadante. Ele deveria ficar quieto, porque Geraldo Alckmin, de 1952, é o dragão: egoísta, excêntrico, dogmático, exigente, irracional, mas um sujeito que, apesar disso, arrasta atrás de si uma legião de admiradores. A idéia de converter o mundo às suas idéias, levou Lula a celebrar com o Irã um pacto atômico. Além do Corão, agora os iranianos vão fabricar a bomba. Lula não ficou nisso. Há pouco, o Irã condenou à pena de apedrejamento uma bela mulher chamada Sakineh Mohammadi Ashtiani: enterram o condenado até o pescoço e mandam-lhe uma montanha de pedras.Lula condoeu-se da adúltera. Será que iria condoer-se dos homossexuais que o Irã também manda executar? Há outras penas por lá e na Arábia Saudita, Somália, Sudão, Paquistão e Nigéria: amputação das mãos e de pedaço do nariz. O Corão não previu o apedrejamento. A bela mulher cometeu adultério e foi co-autora, com o amante, de assassínio. O Irã faz isso em nome da linhagem de sangue, a família, a honra e a propriedade, valores que, no Brasil, com o mensalão, foram parar na lixeira das leis inúteis, na cueca e na Bíblia. Não sei se o nosso magnânimo leu a Bíblia. Santo Estefânio foi apedrejado até a morte. O dia do martírio do santo é 26 de dezembro quando, em geral, ainda não nos curamos da ressaca do Natal. Para executar a adúltera você precisa de 4 testemunhas oculares escolhidas dentre os machos. Jurou que viu, a vítima está frita. Foi o que ocorreu com o santo. Está lá na versão do rei Jaime, Atos 6:11: “Then they suborned men who said, “We have heard him speak blasphemous words against Moses and against God.”” Então subornaram os homens que disseram: “Nós o ouvimos dizer blasfêmias contra Moisés e Deus. Estefânio não era adúltero, mas cometeu blasfêmia. O PT blasfemou alguma vez?


Declaração de voto

FARC, farsa. Disfarça e passa pra frente. Trouxeste o Chávez? Hugo Rafael Chávez Frías. Vaya com Diós, mi vida. Cheiro de pó da manhã à noite.Nuvens coloridas. Comprei do chinês da Liberdade um nariz de louça. O Nike do mano? Vendi na biqueira. Vendi o Cartier da mamita, a gravata Hermès do papito, a chave de roda do Hyundai Tucson, o pneu traseiro do Mitsubishi. Dou rolê às 2 da matina. Quem não conhece a boca vai a rumo, rumo à biqueira. Ali babam 40 ladrões. Os manos de sangue bom. Cannabis para todos! Do Chuí ao Oiapoque só voto no governo. Primeiro votei no papai de barba branca. Agora vou votar na mamãe. Quero levar à rua uma bandeira vermelha para enfrentar o touro do adversário. Valla me Diós.


A nova república

Está cada vez mais difícil para o José Serra subir a serra, a caminho do Planalto. Atravessou-lhe a estrada a moça da VAR Palmares. Lula quer ser o Senhor dos Anéis do Ocidente e do Oriente e, se for preciso pôr fogo no mundo com o Irã, ele o fará. Lula é o nosso soberano e, nessa marcha, ficará no poder 20 anos. O professorado vibra à frente das novas classes ensurdecidas à Cultura e de olho na bolsa do bolsa-família. Melhor ter 3 pássaros à mão do que 16 em vôo. No tempo do seu avô, o aluno tinha de ser asseado, assíduo e estudioso. Quem usava sandália de dedo era pé-de-chinelo. Agora ele é aprovado de qualquer modo: despenteado, malcriado, jeans esburacado. Viver tornou-se apenas questão de conhecer o caminho do boteco e da cerveja. Serra foi tomar chimarrão no RGS, como Getúlio Vargas o fez noutros tempos. Vargas inventou a CLT, o salário mínimo, a certeza de que o pobre viveria 4 ou 5 anos mais e, quem sabe?, o PT. Serra inventou o genérico, a inteligência e a decência no poder. Vargas fumava charuto, Serra não tolera fumaça de cigarro. O PT joga para fora do pau de arara quem não quiser segui-lo na marra. O Brasil virou um sarro.


Não chores por mim, Argentina, Deus, Evita Perón & homossexualidade

É curioso o fato de João Righini ter dado ao artigo de O regional o título da peça musical de Madonna/Evita. Como Sigmund Freud percebeu, os nós de linguagem estruturam-se no inconsciente, cujos fios, multicoloridos, embaraçam-se a tal ponto, que o ego acaba por tropeçar numa maçaroca da qual não nos desvencilhamos nem com reza brava. O inconsciente feito de palavras fala por nós e em nós e só de modo aparente você controla o discurso. Sempre que você afirma tão-somente dizer o que pensa, na verdade você pensa que pensa o que pensa, porque você é pensado por algo que você não admite pensar. O impensado pensa em você. O interessante é trazer à tona o que não foi dito. Assim, a frase do título corresponde ao momento em que Madonna/Evita dirige-se à multidão na sacada da Casa Rosada com as seguintes palavras carregadas de mel e leite materno “Será difícil compreender que, apesar de estar hoje aqui, eu sou do povo e jamais poderei ME esquecer” (...) “Eu tinha de aceitar, e então mudar, e deixar de viver sem ilusão sempre atrás da janela, sempre atrás do portão”. Apesar de ter morrido de câncer aos 33 anos, Evita foi a mãe da grande multidão argentina. Os argentinos dividiram-se entre a mãe juvenil de origem humilde e o pai ditador. Com esses pais, a criança desvalida em nós estará para sempre protegida no sono e na vigília, no medo e na fome. Como no Salmo 23, nada nos faltará. João Righini invocou Deus contra os homossexuais, ao contrário de Perón que se declarou criatura divina. Depois de morta, Evita foi embalsamada, cujo cadáver foi roubado e trasladado para Milão. Dezesseis anos depois, exumado, foi levado para a Espanha e, de lá, por ordens de Isabelita Perón, a sucessora, voltou à Argentina. Cumpriu-se, desse modo, o que o escritor Tomás Eloy Matínez jurou em cruz jamais ter sido dito por Evita: “Voltarei e serei milhões”. Não é necessário ter sido tomado pelo espírito de Sherlock Holmes, para lembrar que ainda estamos sob o impacto do assassínio de Eliza Samúdio cuja beleza suburbana, como a de Evita, provocou o ciúme de Macarrão que mandou tatuar nas costas declaração de amor eterno por Bruno. São esses alguns dos fios esquecidos no fundo do inconsciente: Eliza, Evita, Perón, Bruno, Macarrão. Brasil capital Buenos Aires. Se João Righini, num dia desses, passar pela 37th Avenue, em Jackson Heights, EUA, poderá visitar a Queens Pride House/Casa do Orgulho Gay de Queens: vivem ali gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, além de HIV positivos. Como os norte-americanos são dados à filantropia, a casa é mantida por miliardários generosos. Nas palavras de um dos diretores da casa “We’re immigrants, we’re working-class, we’re family, we’re gay”, quer dizer, “Somos imigrantes, trabalhadores, de família e gays/alegres”. Que pena que o Brasil não é feito da mesma matéria dos EUA!


Necrológio de Agnaldo Moreira

À beira do túmulo dum companheiro que se vai, deveríamos fazer como os velhos comunistas ou antifranquistas que procediam à chamada de ausentes e presentes: Fulano de Tal?, ao que os companheiros respondiam Presente! Agnaldo nasceu em 22 de julho de 1924, seis meses depois da morte de Lênine, em Moscou, aos 53 anos. Lênine criou a Cheka, polícia de inteligência, para defender a Revolução. Agnaldo foi torturado pela polícia de inteligência da ditadura Vargas. A diferença entre uma e outra deve ser medida em anos-luz. Agnaldo era convictamente sério e não voltou atrás, não se justificou, não se corrigiu de arroubos juvenis, não lavou os sonhos em Omo, não se mudou para o bando dos contentes, porém equivocados. Companheiro Agnaldo? Presente!


Os presidenciáveis e suas idéias políticas

Bloco único

1º. candidato:O maior dos males do Brasil é a hipocondria. Até mesmo os governantes são hipocondríacos. Nessa marcha, não haverá remédio para os 100 milhões de eleitores hipocondríacos. A democracia brasileira está na UTI.

2º. candidato:Os portos, os aeroportos e os heliportos não estão funcionando bem, como disse o adversário, mas o meu partido vai fazê-los funcionar. Não mexa em time que está ganhando. No Aeroporto de Congonhas, digo sem medo de errar, os aviões poderão pousar, abastecer-se e levantar vôo, coisa que o restante do mundo, com exceção de Cuba, não tem capacidade de fazer.

3º. candidato: Há uma relação entre o narcotráfico, o futebol e o Verão, porque sem o primeiro não haveria craque nem Coca-cola.

4º. candidato:Se o desmatamento continuar nesse ritmo, a Amazônia vai-se transformar num novo deserto do Atacama e isso fará do Brasil um novo Chile. Outra coisa:Quando eu estive no governo do PT, fui oposição ferrenha e, hoje, fora do PT, sou petista ferrenha, porque o negócio é ser ferrenha.

Considerações finais

1º. candidato:Há um muro que se interpõe entre mim e o latifundiário. Foi erguido há muitos anos por aquele filósofo francês zarolho, Jean-Paul Sartre, autor da famigerada peça O muro.

2º. candidato:Antes do PT, só existiam Garanhuns e a casa de pau a pique do nosso magnânimo líder. O PT inventou tudo, até mesmo o Sr. Efeagácê e sua curriola predadora.

3º. candidato:Eu chorarei amanhã, hoje eu não posso chorar.

4º. candidato:Toda árvore, quando está de pé, apresenta sustentabilidade. O problema começa quando ela tomba e perde sustentabilidade. Até os 16 anos, eu não sabia ler nem escrever, mas de lá para cá devorei um a um os livros de Paulo Coelho.


Marketing político

Jânio Quadros tinha o aprumo oblíquo dum agente funerário, caspas espalhadas pelos ombros. Chegou lá. Cacareco nasceu rinoceronte no zôo paulistano, candidatou-se a vereador e chegou lá. Collor era bonitão, pilotava tanque de guerra e avião, chegou lá. O PT reinventou os pobres, chegou lá e de lá não quer sair nem com reza brava.Pobre vota em rico e o PT enricou. O candidato precisa dum esgar, uma careta, uma habilidade, uma semelhança, Obama ou Bin-Laden. O candidato precisa saber como se vender ao eleitor que vai às urnas como alguém que vai à feira, no final, hora do arremate e da volta para casa do feirante que acordou às 3 da manhã. Curioso como ainda não apareceu candidato disposto a se fazer passar por Mr. Bean, talvez porque não fique bem ao político ser tido por idiota. O vendedor de tapete doutros tempos foi o grande mestre dos políticos: tudo nele ou na linguagem oral ou gestual tinha de parecer espontâneo, a tal ponto que o tapete, a coisa básica, deveria parecer secundária, como se o homem não estivesse ali para vender. Se o político confessasse estar de olho no salário oferecido ao detentor do cargo, ele poria tudo a perder. Os interesses do candidato serão sempre sublimes, elevados, humanitários. O político é uma das últimas criaturas do bem existentes neste fabuloso País chamado Brasil. Recomendo ao Dunga candidatar-se a cargo eletivo: ele faria da desgraça tema de campanha e chegaria lá. O choro faz parte do jogo político. Como são muitos os percalços na rua ou no palanque, a concorrência ao cargo acirrou-se bastante e os custos de uma campanha de sucesso sejam absurdamente elevados, ofereço aos candidatos um arsenal de objetos encontrados em brechó capaz de conduzi-los a um final feliz: guarda-roupa completo, brindes, santinhos.Resultado infalível. O candidato precisa de calçado especial para chutar por baixo da mesa o adversário ou seu leão-de-chácara. Carece também de reforçado peitoral para o caso de, num boteco exótico, ter de tomar buchada de lagarto ou carneiro e a comida quente cair-lhe no peito. Ele terá de pensar em brindes para oferecer à filha ou à mulher do provável eleitor. No caso do eleitor que lhe garantir uns 300 votos, ele poderá oferecer-lhe a lâmpada de Aladim. Recomendo ao candidato economizar na confecção de santinhos tradicionais porque estão fora de moda. Assine contrato com provedor poderoso para enviar, por spam, seu nome aos milhões de celulares espalhados por aí. Os celulares tocam em qualquer lugar: velório, ópera, motel, rua, carro, carroça, sauna. Se esse cursinho de marketing político não funcionar bem, pelo menos você poderá ficar convencido de que fez grandes tentativas de atualizar-se sem dizer que o seu nome era Enéias!


Paisagem

Com o chapéu na cabeça sentei-me nesse banco de pedra ou madeira a perna direita cruzada e a esquerda encoberta pela grama sépia à chuva e ao sol por tantos anos que já não sei mais recontá-los e os lugares desfeitos na caixa estreita da memória e só me lembrei de que meu pai havia dito com voz baixa e pausada fique aí e não espere que as coisas sejam outras que não as que puderem ser porque quando venta venta e quando não venta não venta e ninguém virá para alterar o esboço da paisagem rei ou mágico poderá curar o destino preso ao leito por doença incurável e foi o que meu pai sussurrou no meu ouvido minutos antes de me entregar o chapéu.


Luzes da Ribalta

Em CTV, as coisas se dão como se aquilo que ocorreu antanho ainda estivesse vivo e escorregadio como peixe há pouco tirado do anzol e colocado na grama, quando, na verdade, o peixe ressecou-se e o pescador preparou-se para levantar acampamento. Luzes da ribalta que há décadas vimos no velho Cine República pôde ser revisto, por inferência, no espetáculo do candidato Roberto Cacciari à assembléia legislativa de SP. Faltaram a bela dançarina e o congenial Buster Keaton, um caladão que dizia mais que mil discursos oficiais. Àquelas figuras coloridas faltava também a ojeriza de Chaplin ao macartismo perseguidor das esquerdas norte-americanas. Tudo ou quase tudo ocorre na ribalta, porque a coxia é o lugar dos sussurros, dos acertos, das estratégias para depois do palanque e das urnas. Com Cacciari no maxilar, portanto bem próximo da boca, e o retrato do candidato no peito, área do coração, Carlos Eduardo, uma vez mais, treina sem sparring para lutar pelo cinturão de ouro que outros ex-candidatos vivos não puderam mais usar por terem sido nocauteados. Os saudosistas não admitem, mas Carlos Eduardo pôs na rabeira o inefável Orlando Zancaner/OZ, o nosso mágico de Oz. Que pena que os novos eleitores não conheçam a música de Chaplin traduzida para o Português: Vidas que se acabam a sorrir/luzes que se apagam, nada mais/é sonhar em vão, tentar ao outro iludir/se o que se foi pra nós não voltará jamais/Para que chorar o que passou/lamentar perdidas ilusões/se o ideal que sempre nos acalentou/renascerá em outros corações.


Vinholi delenda est ou Destrua-se Vinholi

A frase do título teria sido pronunciada por Catão, o velho, numa das Guerras púnicas. Como os romanos eram cruéis, não se limitavam a vencer o adversário: eles queimavam, salgavam o solo, passavam exército e população a fio de espada e escravizavam os sobreviventes, além de pilhar e apropriar-se das ferramentas por acaso desenvolvidas pelo inimigo. Volta e meia a frase aparece na crônica jornalística como sinal de insistência, repetição, tenacidade, vingança ou vitória absoluta. Depois que a cidadela do inimigo tiver sido arrasada, o vencedor erguerá no lugar nova cidade em tudo e por tudo contrária à primeira. De acordo com os versos de Franco Battiato Per terre ignote vanno le nostre legioni a fondare colonie a immagine di Roma, isto é, Por terras estranhas vão nossas legiões fundar colônias semelhantes a Roma. Vinholi foi e continua a ser o grande inimigo. Não quer dizer que ele o seja de fato, mas, se o adversário for persistente, insidioso e tenaz poderá convencer uns 800 gatos pingados de que o carcamano é parente da besta-fera do Apocalipse. É bom lembrar que a Rainha Louca de Alice chamava de louco os adversários, atitude que a velha Lógica de Aristóteles gostava de ver como prova evidente da loucura do emissor, quer dizer, o louco da história não era o xingado mas a xingadora. Outra situação é que nesse passo não precisaremos ter programa de governo nem convencer o eleitor de que faremos mais e diferentemente do que fez Fulano da Silva Quadros, mas tão-somente pintar de rubro-negro o inimigo. Política da maledicência, recheada de fricotes, falsos sorrisos e piadinhas marotas. Cartago é a atual Tunísia, bem distante de Tapinas.


Paul, o polvo alemão, em CTV

Beth e o irmão, Crippa, Cacciari, Bersa, Sinval e De Fázzio fizeram uma vaquinha e resolveram emprestar dos alemães, assim que terminar o campeonato mundial de futebol, o polvo do aquário de Oberhausen. Os alemães resistiram à idéia até que a Espanha, de acordo com a profecia do famoso octópode, mostrou aos germânicos como são as coisas. Ao se dar conta de que Paul iria mostrar ao Dunga com quantos dribles bem dados se faz um gol vibrante, entregamos a rapadura, enfiamos a viola no saco e voltamos a perguntar ao travesseiro e ao espelho se não somos o povo reeleito pelo Demiurgo. Meu Deus, o que estará acontecendo conosco? Paul acerta na mosca e na comida. Será que ele reconhece bandeiras, sabe ler? Se o futuro político de assembléia quiser ter a seu lado assessor rápido de movimentos e inteligência, leve consigo, no fundo da mala, um polvo sabido como Paul. Velho, você não faz idéia: oito braços e oito pernas, tem ventosas como as lagartixas para escalar qualquer parede ou muro. Caso o político a quem ele assessora, perceba que o adversário vai aprontar-lhe armadilha ou cilada, Paul não hesita: solta uma espessa cortina de tinta preta que faz com que o inimigo erre o caminho e se estrepe na primeira árvore do Ibirapuera ou se afogue no Lago Paranoá. Se o político for fogoso no leito, Paul o ensinará as fantásticas preliminares que duram horas ou dias. Estará meio complicado saber quem vai eleger-se aqui na terrinha mas, se a bóia for atraente, Paul apontará os vencedores. Bóia? Kafta e homus para os Sahão, bacalhau à moda do Porto para Bersa e Sinval e fettucine ao pesto para De Fázzio, Crippa e Cacciari. Paul não gosta de vinho.


A coisa pública, a coisa privada & o futebol que não sabe onde está

A necessária distinção entre coisa pública e privada começou a borrar-se em 1964 com a instalação da ditadura militar.Foi assim: a caserna resgatou do baú da monarquia lusa a figura do inimigo interno, quer dizer, o perigo não residia mais no outro lado da fronteira, mas, disfarçado, andava entre nós. Lavada, passada e escovada, a criatura franksteiniana assustou a família, sócios de mesmo clube e os carolas: como pode ser inimigo quem até ontem esteve por aqui e parecia ser um dos nossos? O inimigo não tem representação ostensivamente pública, não é parte duma coletividade, como o alemão para o francês, na Segunda guerra, ou os paraguaios para os brasileiros, noutros tempos? A ditadura inflou o balão subversivo que, de pequeno, frágil, misterioso que era, tornou-se colorido, loquaz sem perder traço de mistério. As idéias claras de Leibnitz, que noutros tempos eram ensinadas na velha escola como as únicas capazes de limpar de nossos olhos a visão embaçada do obscurantismo, agora deviam ser postas entre parênteses e evitadas.A idéia tornou-se contagiosa e quem contraísse o sarampo socialista corria risco de vida. O inimigo não era mais alguém privado. O avatar de Nassau é um sujeito massudo, veloz e vestido de cenoura. Ao contrário, a velha e excelente escola, cujo mestre servia de modelo intelectual e moral ao futuro cidadão, a partir de 64 virou o lugar onde circulavam subversivos: O livro vermelho de Mao Tsé-tung à mão, banana de dinamite no bolso do casaco. Nesse passo, meio capenga, a escola resistiu até meados dos 70s, quando perdeu o estato de coisa pública.Hoje a escola é coisa privada e o mestre encolheu-se até os limites de sua disciplina. A geografia do mestre termina nos contornos do espaço escolar. Com o futebol, paixão nacional, portanto coisa discretamente pública na República velha, ocorreu o seguinte: ao deixar o rádio pela televisão, passamos a crer em criaturinhas binárias como se fossem reais, enquanto que a voz do narrador falava dum jogo hipotético, portanto ideal( sob cujas arquibancadas os aparelhos de tortura da ditadura arrancavam unhas e berros dos subversivos), que correspondia à materialização de seu desejo. Gozamos ou nos frustramos com o gozo do narrador, ou então com sua tristeza pela derrota. O luto do narrador é o nosso luto. As mães que choraram os triturados no pau-de-arara estavam mortas há muito tempo. Sem ter algo substancioso para dizer, e apavorado com o silêncio diante da câmera, o narrador soltou algo como “Era apenas um campeonato mundial de futebol!”, como se pudesse ser outra coisa. Tradução: perdemos o campeonato , mas a vida continua. Como remediar o irremediável? O luto cobriu de negro a geografia da nação. Vamos beber cerveja, moçada, enquanto Dunga, sempre de perfil baixo, toma chimarrão em cuia de ouro e diamante. A ditadura? o velho mestre? Quem se lembra deles? Público é privado, privado é público.


Há 90 anos, o professor Ismael Martins entrou na classe do primeiro ano primário de Ururahy, SP, de terno, gravata, sapato engraxado e cabelo penteado. Ele não tinha carro nem casa própria. Era professor e professor que se prezasse tinha de ser asseado. A classe respondeu à chamada e permaneceu em silêncio, até que um fedelho da altura duma escada disse-lhe algo atravessado.O professor não hesitou e enfiou a mão na cara do marmanjo.O rapagão disse que o pai, quando soubesse da surra, iria matá-lo. Ato contínuo, o professor Ismael enfiou a mão no bolso interno do paletó, tirou um punhal, enterrou-o com vigor na tábua da mesa e, num gesto teatral, disse ao molecão: “Pode chamá-lo!”O codinome de Ururaí, na época, era “terra de ladrão de cavalos”, extensão do faroeste norte-americano. Corte. Noventa anos depois, num colegial de Catanduva, a professora de Física entrou na classe, teve dificuldade para fazer a chamada e disse ao marmanjo dançarino que se sentasse e permanecesse quieto. Dançarino de gestos toscos é pior que o pior dos dançarinos aprendizes. Como ele não o fez, a professora berrou que se sentasse imediatamente, ao que o aluno praguejou, gritou e, um a um, emitiu os palavrões de sua memória feita de vento e coisa alguma.Jó agüentou a bucha e não praguejou contra o Senhor. Há noventa anos, em Ururahy, aluno do segundo ano da escola primária sabia como cubicar uma árvore. O rapaz do colegial não sabe onde tem o nariz nem se Nova York fica na Tanzânia. Ele odeia a escola, os livros e a Cultura e, antes mesmo de se iniciar num trampo qualquer, estará preocupado com a aposentadoria. O leitor sabe da existência dum manual dos direitos da criança e o adolescente, mas nunca ouviu nem ouvirá falar dum manual dos direitos dos novos bárbaros que, coadjuvados pela ditadura de 64, transformaram a escola pública num abacaxi azedo. A ditadura quis pôr em prática um tipo de pedagogia da caserna, mas a verdadeira Cultura é meio anárquica e não se contenta com os asfixiantes limites da caserna. O Atilazinho põe bomba caseira no banheiro da escola, mas jamais pichará a parede do banco, lugar do dinheiro. Ele não invade o prédio da prefeitura, mas põe abaixo, aos pontapés, a porta da classe. A escola é sua praça de guerra. A escola particular vai bem, obrigado! O professor Ismael sumiu-se por entre as cortinas da espessa neblina e a professora de Física não sabe o que fazer, além de mostrar-se preocupada com o filho, transportado numa perua pelo pai do dançarino desmiolado.


O maior cego é aquele que não quer ver

Estilhaços. Ensaio sobre a cegueira é um filme feito de estilhaços, sustos, trombadas, vidros arrebentados, trânsito absurdo de automóveis, lixo, fome, terror, loucura. Ele é como o livro de José Saramago, de 1955, cujo roteiro foi dele extraído. Não se iludam: Saramago é autor difícil e, para vencer a leitura dum de seus livros, depois de escalar a pé os 20 primeiros andares, você terá, mais à frente, outros 20. Não se distraia. O Autor reflete à medida que redige. No cinema, você se senta numa poltrona confortabilíssima, da qual se projeta uma rampa para os pés. Você afunda na poltrona e o filme de Saramago/Meirelles acerta-lhe um petardo de 80 quilos no queixo.Quem o mandou deliciar-se com o conforto? Você tomba, cego ou, se quiser, mergulhado numa atmosfera leitosa: buraco branco.Parábola.As personagens não têm nome como o comum das pessoas, todavia são identificadas por o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, o médico, o velho com a venda nos olhos, o ladrão, a velha do primeiro andar, o cão de lágrimas, o cego da pistola. Tudo como se fosse num interrogatório policial em que o depoente não sabe quem era quem ,ou então como as coisas se deram de fato. O executivo japonês fica cego, de repente, no meio do trânsito. Trombadas, gritos, xingamento, o semáforo abre-se e se fecha, várias vezes. Alguém dirige o carro do japonês cego, leva-o até um ponto qualquer, abandona-o e rouba-lhe o automóvel. Outro auxiliar o salva no meio da rua e o leva para o apartamento. Quando a mulher chega à casa, o encontra ferido na poltrona. A mulher o leva ao oftalmologista,que nele detecta agnosia. Nada há de errado nos olhos, mas o homem está cego. É o primeiro de muitos, de milhares, milhões. Epidêmica, a cegueira alastra-se pelas cidades.Os carros tornam-se inúteis, aviões despencam, incêndios, faltam água, alimento e luz elétrica. O governo e seus asseclas confinam os cegos num imenso galpão, cuja guia, a mulher do oftalmologista, de olhos sãos, assiste homens e mulheres no banho, no sono e nas necessidades fisiológicas essenciais.”Lutar foi sempre, mais ou menos, uma forma de cegueira. Isto é diferente. Farás o que melhor te parecer, mas não te esqueças daquilo que nós somos aqui, cegos, simplesmente cegos, cegos sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos.” O filme é porco porque somos porcos. O resto deixo para o espectador descobrir. Vá ao livro, se quiser.


Em Cape Town nunca fui à praia lotada de brancos rosados

& olhos cor de lavanda

Pensei com os meus botões:

vou-me deitar uma tarde inteira

na grama bem plisada de Cape Floristic Region

& sonhar com uma tigela de arroz

Meu bisavô foi menino ossudo

& ajuntou-se aos brancos na corrida do ouro de 1886

chamada Witwatersrand

Na segunda guerra boer levou um tiro na boca

& nunca mais pode soletrar Uitlander

Agora estou na terceira prisão por roubo

& não vou ver o campeonato mundial de futebol


Os franceses estão aliviados: o túmulo de Napoleão Bonaparte não se localiza no cemitério da Av. 24 de Fevereiro

Provocou grande bafafá na França a matéria do jornal eletrônico www.passandoalimpo.com.br sobre caixões exumados e a seguir atirados por aí à vista dos passantes. Cartesianos, os gauleses não se preocupam com fantasmas de quaisquer aparências, mas, sim, com o caixão de Napoleão Bonaparte nos Inválidos. Ainda que a belíssima caixa só abrigue as cinzas do grande general, alma da França, a turma tratou de correr daqui para lá e de lá para cá para saber ao certo o que havia ocorrido de fato e, quando se deram conta de que o desventramento de caixões fora coisa de catanduvenses, ficaram aliviados e, como o general De Gaulle, comentaram: “Ali pelos lados do Noroeste tudo pode acontecer. Felizmente, Napoleão continua conosco”. Sem o pênis, é verdade. O médico que assistiu o general nos estertores da Ilha de Elba o extirpou e guardou bem guardada a preciosidade que Josefina conheceu na intimidade da alcova real. Do grande e pequeno corso, extirparam-se também peças do intestino roídas por câncer. Os salgueiros que circundavam o túmulo de Elba foram levados como lembrança. De Napoleão todos queriam um pedaço como diz a tia solteira do sobrinho que acabou de nascer: “Vou arrancar-lhe um pedaço a mordidas!” Há pouco morreu nos Estados Unidos John K. Lattimer, último proprietário do pênis que mais se parecia com um velho cadarço de tênis, além de outras relíquias macabras como a cápsula de cianureto ingerida por Göring.Lattimer era professor e, como a escola está um abacaxi, ele passava grande parte do dia no exame da coleção macabra. Em 1840, o rei Louis Philippe decretou que conduzissem as cinzas de Napoleão de Elba para a Catedral de São Jerônimo e em 1861 foram levadas para os Inválidos. Os franceses cuidam muito bem dos vivos e mortos, razão por que poderíamos entregar-lhes a administração do cemitério. Ali estão os ossos dos aguerridos moços do 32 – Ortega e Josué. Como há pouco sumiram-se do MIS fuzis e revólveres da Revolução constitucionalista, teremos de montar guarda junto ao túmulo dos rapazes. Vigiai e orai.


Um livro necessário sobre da ditadura de 64

Voluta, cravelha, pestana, queixeira, talão, resina, espaleira, surdina, flanela, metrônomo, higrômetro, diapasão; mi, lá, ré, sol; soprano; agudo, brilhante, estridente, pizzicato, col legno, vibrato, glissando; o arco; o spalla, sempre à esquerda do maestro. O volume enxuto de Édie José Frey e Felipe Brida tornam-se, a partir desta 6ª.-feira, necessários à reabertura da discussão sobre os artifícios, os sacrifícios & os malefícios da ditadura de 64 e o silêncio sartriano que perpassou sobre a província local por 21 anos. O comportamento da imprensa, o assanhamento e a omissão da classe média poderão ser repensados por Tempos de ditadura, jornais e revistas de época, depoimentos. Abro coração e mente ao jornalista e ao Édie, companheiro de 50 anos de luta. Sucinto, o volumezinho poderia ter-se estendido no esmiuçamento dos fatos de 64, na vigorosa atuação das esquerdas locais em 68 e 69 e no confinamento em Lins, em novembro de 1970. Até mesmo o humor escatológico de Ultério Facci, na Rua Amazonas, em frente do prédio da delegacia de polícia deveria ter sido mencionado. À sua moda, Ultério carimbou a ditadura com o que ela merecia. Em 68, enfrentamos o inefável Orlando Zancaner que, depois de ter-nos enxotado da Arena, animou-nos para fundar o MDB, de cujas trincheiras abrimos fogo contra milicos ensandecidos & seus acólitos. O episódio de Lins foi presidido do cerco da casa/escritório de advogacia de Édie, na Rua Cuiabá, 456, de onde ele resistiu por três aflitivos dias e deu merecido cansaço à tropa armada postada à frente do prédio. Valeria a pena, também, falar de Lins, do velho partidão, dos amigos daqueles dias, porque, agora que estamos passando dos 18, nossa memória das coisas começa a se perder numa estrada coberta de neblina & incertezas. Édie, o spalla, sempre à esquerda do maestro.


Ode à mala

A mala? Amá-la, hoje, amanhã & sempre. O que recheia a mala? A fauna & a flora no dinheiro presentes. A mala, a maleta, a bolsa, a bruaca, o alforje, a valise, a pasta, o baú, a sacola. A mala tem compartimentos nos quais a moeda logo se cala para não se denunciar. A mala vai e volta, vai e volta, até ficar torta. Miguel Strogoff a levou em lombo de cavalo e com ela cruzou a velha Rússia czarista, o gelo, a borrasca, o frio, a noite sem estrela, o chacal, o cansaço, porque nada impediu que Miguel, correio do czar, o estafeta, conduzisse a bom termo, como então se dizia, o alforje, em que o dedicado cavaleiro levava carta ao rei. Em tempos mais ágeis, o ouro aninha-se no fundo da mala, sem pejo, como pepita de ouro na bateia. Mala sangre, mala preta, mala perto, mala esperta, mala alerta, mala encoberta, mala funda, mala imunda, mala pesada,mala safada, mala recheada, mala privada, mala acoitada, mala anônima, mala epônima. Quem leva a mala leva a si mesmo na mala? O rosto do transportador imprime-se na mala como os selos dum hotel localizado no meio duma vila sitiada, arrombada. Mala postal, mala de mão, mala-sem-alça, arrastar a mala, de mala e cuia, fazer a mala, mala de garupa, à chuva e ao sol, saco de pano ou couro sem decoro, bovino morto, esturricado, mala, pessoa inconveniente, leniente, chata, maçante, abracadabrante, mala direta. So what happens now? Another suitcase in other hall.


Já fomos modernos um dia

A segunda versão do prédio do Banco do Brasil (a primeira localizou-se num edifício térreo, porém imponente, na esquina da Rua Brasil com a Sergipe, no lugar do atual Banco Itaú) inaugurou-se em 13 de setembro de 1950, poucos dias antes das eleições que conduziriam Vargas ao poder e, a seguir, ao suicídio. Como a primeira, a segunda também se desfez: em seu lugar vemos hoje o caixote sarcofágico da Caixa Econômica Federal, na Rua Brasil com a Alagoas. Como Jonas engolido pela baleia, o BB sumiu-se no estômago da Caixa, a Federação deglutiu o Estado e a graça do puro moderno deu lugar à feiúra do pós-moderno. A conseqüência da deglutição do edifício original por outro de estilo brutalista foi que nos perdemos do bom caminho da arquitetura brasileira moderna, aberto por Le Corbusier e Oscar Niemeyer, e , mais próximo de nós, por Edgar Guimarães Valle, autor do projeto do BB. Quem se deu conta da superior qualidade arquitetônica do prédio e suas exponenciais qualidades de função foi Antônio Zaccaro num artigo publicado na revista O século.Ao projetar o belíssimo edifício do Correio, na Rua Pará/Paraíba, Zaccaro o fez inspirado no BB. Infelizmente, esse prédio virou posta-restante. O ato de assimilação dum edifício por outro não atingiu apenas o prédio do BB, mas disjuntou-nos, de modo irremediável, de nossas raízes mineiras dos Borges, Figueiredo e os anônimos. O caso de Edgar Valle é especial porque, em Cataguazes, na Zona da Mata de MG, onde poderemos percorrer acervo notável de arquitetura moderna, com ousadia, ele projetou a Igreja Matriz de Santa Rita, em 1944, antes que Le Corbusier, na França, projetasse a Capela de Ronchamp e Mies van der Rohe, o Lake shore drive de Chicago; no ano em que o prefeito Sylvio Salles deu início à construção do Parque das Américas, mas também o de estréia da Rádio Difusora ZYD-5. Caminhávamos rápido na direção da modernidade.


Cultura e trabalho nos tempos do PT

Oito horas da manhã dum dia inusitadamente frio do início do Outono. O oiti abriu-se frondoso para espalhar sombra numa nesga de asfalto escaldante e preparou-se para abrigar o ninho da juriti. O Crossfox cinza metálico estacionou ao lado do oiti. De bermuda, escada de alumínio, tesourão de poda e bolsa de ferramentas, o homem massudo desceu do veículo e preparou-se para o trabalho de desbaste e poda do oiti. Li no boné: jardineiro profissional. Caramba, pensei: deve ser mais um dos retornados da política de Obama que, ao desempregar brasileiros, pôs na rua também chicanos e chinas do vasto mundo.Não havia mais sapatos de cromo para engraxar nem blocos de concreto para assentar, mas o homem era dono de tecnologias arbóreas de ponta.O que Sarney exportou - vontade de enriquecer e comer hambúrguer - Lula trouxe de volta. Lula tinha na manga da camisa o ás de ouro: era contra o Capital e a favor do dinheiro. Como a vida melhora bastante com dinheiro, Lula estabeleceu relações de conúbio com o Capital e foi vendê-lo por aí. Nem Obama pôde livrar-se do assédio monetário do guy, grande chapa do mundo miliardário. O homem voltou e amanhã ou depois vai-se doutorar em poda de oiti. Assim, recomendo aos jovens pais ou avós precoces que, diante da insistência do filho ou neto em estudar, aplique-lhe uma bela coça, mande-o para o canto da sala e, aos berros, diga-lhe: Caso você insista em estudar, vai acabar virando carroceiro! Um jardineiro profissional talvez consiga aposentar-se com 20 ou 25 anos de poda de oiti: trata-se de profissão de risco: dedo decepado ou muitos galos no coco. O parente contou-me outro caso: o do caseiro do sítio que, envelhecido depois de lavrar a terra ao sol e à chuva, bem que merecia honroso descanso. Meu parente insistiu com o homem que estava na hora de ele preocupar-se com os dias de boa vida e que, por isso, iria recolher em seu nome o pagamento da previdência. O homem nada dizia, meu parente voltava à carga, até que o homem revelou o grande segredo engendrado nas oficinas do PT: que o meu parente esperasse um pouco mais, se não a mamata dos tempos de pescador profissional iria por água abaixo. Que o meu parente ao menos aguardasse o fim da piracema ou dos 3 ou 4 meses em que recebia benefício do governo.Marx e Keynes, mais tarde, estavam enganados: o acúmulo do Capital não se faz com a exploração da força do trabalho, mas pela destreza e a habilidade com que você encontra os atalhos do malandro contemporâneo. Vivendo e aprendendo, lema a ser posto em prática por quem fala pelo novo dialeto. O PT não é, nunca foi nem jamais será marxista. Talvez venha a ser marCiano se descobrir que em Marte as coisas poderão ser tão boas quanto na Terra!


As armas e os barões assinalados

Lígia Torchetti Ferreira chamou de lamentável o desaparecimento de fuzis e revólveres do acervo do MIS. Há equívoco no uso da expressão, porque o roubo não inspira piedade e não o faz porque a coisa gravíssima não tem nada a ver com religião. É coisa nossa e tem a ver com o descaso absoluto pelo pouco de cultura autêntica que nos resta. O MIS não foi roubado pela primeira vez e, por certo, não será a última. Como a carroça do catador de sucata, ao deslocar-se pela cidade, perde papéis e latas, ao longo de 30 anos os museus da cidade perderam porções preciosas de seu acervo, o que implica em dizer que o povo da cidade perdeu memória.Onde estão os sensores de temperatura corporal e as famosas câmeras de vigilância? É isso, Lígia Ferreira! Memória é coisa séria e sem ela a cidade ficará entregue ao peão de boiadeiro e ao boteco, aos quais a boa memória prejudicaria bastante: ao primeiro porque ele se esqueceu de como os animais gostariam de ser tratados; aos segundos, porque o bêbado bebe para se esquecer de que bebeu e assim por diante. Você se lembra, Lígia, do levantamento do acervo que, quando fui dinamitado da cultura, estava prestes a concluir?Os patacões de ouro ainda estão por lá? O que os museus tinham e têm está nos livros-tombo e tudo aquilo pertence à comunidade. Você sabia, porque nós lhe dissemos, que as dependências do MIS eram frágeis e também que a guarda patrimonial deve ter desenvolvido critérios particulares e insondáveis de patrimônio, dentre os quais não se incluem proteger velharias de museus.Lembro-me perfeitamente bem de seus pruridos com as velharias do MIS. Você sabia que parte significativa do acervo foi doado pela comunidade de CTV? Se roubo é desapropriação do bem alheio, quem responderá pelo desaparecimento de parte da memória do 32? Por bem menos, o Sr. Prefeito exonerou, processou e mandou pagar a conta. Conte para a cidade quantas coisas foram roubadas na Estação Cultura!


Affonso Macchione, assim como você foi meu aluno de Língua portuguesa e Literatura na década dos 70s, quando o grande escritor pernambucano Osman Lins visitou-nos no velho Barão, Vicente Tommarozzi, vendedor de jornais e revistas, foi aluno de minha sogra em Urupês.

Ettore Benatti, meu avô paterno, abriu duas escolas pelos lados de Santa Adélia, na década dos 30s e uma tia minha, Olga Benatti, é nome de escola paulistana.

Sabe, Affonso, a escola dá a você uma ferramenta útil: sem ela ninguém chega a lugar algum. Você recebeu essa ferramenta, bem como seus filhos que também foram meus alunos. Diferentemente dum martelo que permanece grande parte do tempo no depósito de ferramentos, a leitura é mobilizada o tempo todo, até mesmo para ler anúncio de bacalhau no vidro traseiro dos ônibus urbanos. Como você é homem abonado, viajou por aí: Canadá, Inglaterra, Itália e outros países do vasto mundo civilizado: você viu banca de jornais e revistas nesses lugares?Em Roma, Affonso, você não comprou, na rua, Il corriere della será? Você entende que a banca de jornais e revistas serve à circulação da cultura de escala mundial? Onde é que as bancas se localizavam? Na rua, Affonso Macchione.

Por acaso, você percorreu a cidade de carro ou a pé, em qualquer dia da semana, mas principalmente nos fins de semana e feriados? Se você esquecer-se dos 65 mil veículos que sobem e descem as ruas impermeabilizadas pelo asfalto sem saber, muitas vezes, por que o fazem, e se você estiver lúcido, há de admitir que CTV transformou-se num deserto cultural, no Saara do pedaço, no Negueve dos que só têm boteco, boteco & boteco.

Não temos biblioteca nem museus. Quando fui trabalhar, em 2005 e 2006, na sua administração, coração alimentado pela esperança, descobri, cheio de espanto, que tínhamos museus e quantos! Museu histórico e pedagógico "Pedro de Toledo", Museu de rua, Museu do disco, Museu do imigrante (projeto), Museu filatélico e numismático. Um dia sugeri a você que fizesse do Castelinho uma rádio comunitária: atrairíamos adolescentes, locutores mirins, eles teriam lugar de destino fora da escola, a cidade poderia ouvir os 3 mil discos de vinil do Museu do disco. Não, uma cabeça oca disse-lhe que o prediozinho estreito deveria ser pinacoteca. Pinacoteca de quê, se não temos produção artística e o pouco que temos é cópia imperfeita do que se fez no Impressionismo?

Por acaso, alguém do seu entorno disse que a banca de jornal e revistas é obstáculo para o pedestre? Vá à calçada do Pai e confira o desnível de mais de metro entre o leito normal e a porta de entrada. Firmo com você e a comunidade o seguinte compromisso: você me convida para conversar com o arquiteto oficial da prefeitura sobre os detalhes duma biblioteca pública moderna, bem ventilada e de baixo custo e, a seguir, você me nomeia seu diretor sem me pagar um único centavo!Os dois anos de pesquisa no Instituto Presbiteriano Mackenzie/SP, na área de Arte, Educação e História da Cultura, qualificam-me para o exercício. Se me der 2 mil paus, prometo, a cada mês, investi-los na melhoria do acervo da biblioteca.

Affonso Macchione, a banca de jornais e revistas de CTV é o último cenário de cultura da cidade!Quando elas forem removidas, de acordo com sua vontade , ficarão os mendigos e os semáforos do Zé Garcia: verde, amarelo, vermelho, verde, amarelo, vermelho. Deixe o Vicente, a Sara e o Rossi ganhar a vida, Affonso Macchione!Que bicho o mordeu, cujos efeitos o impedem de ver a coisa como ela é?


WAG ou Warley Agudo Romão

Warley Agudo Romão, mignon de físico, pensava largo, rápido no gatilho, lépido, e, entre duas opções, acabava por escolher, não a menos complicada, mas a que atenderia de maneira clara à ação projetada. Foi aluno do velho Barão nos tempos gloriosos da escola pública, conheceu a fortuna na casa dos pais, estudou Direito no Largo São Francisco, escreveu livro de contos, pensou em como adiantar o atrasadíssimo relógio das comunicações em CTV, fundou O Regional e para lá levou os amigos: Lecy Pinotti, Sérgio Lobão Dias, Claudiomar Couto, LRB, João Elias e outros companheiros de boêmia e escrita. Coisa raríssima para os padrões de época, contratou o jornalista e sociólogo Clóvis Moura.Warley não suprimia o fato nem de maneira neurótica queria varrê-lo para baixo do tapete. O Regional daqueles dias fez o que noutros tempos O Bandeirantes, de Geraldo Correia, fizera do modo mais competente possível. Ele tinha um propósito: chegar à prefeitura. A sua primeira administração só poderá ser bem avaliada pelo historiador da cidade dentro de 20 anos. É espantoso como ele edificou, coisa que a moçada de hoje não sabe: o prédio da prefeitura, a câmara, pontilhões e o teatro municipal. Com a Sra. Gilda Brandi à testa da Cultura, Catanduva conviveu com a efervescência e a agitação cultural. A cultura transbordou dos espaços intimistas para a rua. É interessante rever Dona Gilda, gravador enorme à mão, na Praça da República, recolhendo os sons de música de viola, num filme da tevê Cultura. Naqueles anos, CTV ficou um pouco parecida com São Paulo, Curitiba, Londres e Nova York.Hoje, ela lembra uma cidade de serviços e, como Eduardo Suplicy, em Genebra, nu sob a neve, ela "está à procura de seu eixo".


Jean-Baptiste Debret e o pátio de serviços

Quarenta ou cinqüenta anos depois da morte de Debret, em 1848, os mineiros desceram do sul de Minas Gerais para se fixar nestas bandas onde vivemos e berramos até hoje. E, quanto mais berramos, tanto mais doem nossas gargantas. Não queremos ser mais os cidadãos que, a cada quatro anos, vão às urnas para referendar o nome do belo adormecido que dará à cidade a mão de cal segundo seu gosto ou habilidade. Queremos falar porque esse é o pressuposto do governo democrático. Abrir valeta? Poderemos ou não dizer sim ou não? Pracinha? Quanto vai custar? Biblioteca? Se a de Alexandria se queimou, o melhor é não correr o risco de ver a nossa em meio às cinzas. Põe secretário, tira secretário? A defenestração obedeceu a um plano ardiloso ou foi absolutamente necessária? É simplesmente absurdo ver moços na condução da prefeitura, de cetro à mão, como se fossem déspotas incientes. É inconcebível assistir a atos e mais atos duma administração sem plano, meta ou bússola. Debret? Debret foi retratista do Império antes da fotografia. Ele entrou na casa do senhor de engenho, sentou-se a uma cadeira, e, um pouco distante da mesa de refeição, caderno de desenho à mão, desenhou esse quadro fantástico, cujos sinais de exclusão achávamos que o tempo e a desmemória haviam deglutido. Enquanto os donos da casa comem e bebem, a mucana providencia ar fresco com um abanador de pena de pavão. Os negrinhos esparramam-se pelo chão e outros serviçais sem salário, cama e banheiro espiam da cozinha para, rápido, suprir as necessidades do patrão ao primeiro grito. A escravidão negra foi a grande sacada do Império para os patrões acumularem capital, comprar terras e viajar para Paris, tudo de acordo com a Lei.No latifúndio açucareiro, havia a casa grande e a senzala, espécie de pátio de serviços onde, à noite, os negros comiam feijoada e sobras da mesa branca, batucavam e,mais tarde, dormiam o sono de pedra. Os negros não tinham privada nem papel para se limpar: faziam atrás da bananeira cujas folhas, sedosas, tinham a vantagem de não marcar a pele do terminal rodoviário com tinta de imprensa. Só há um jeito de redescobrir para CTV trilhas modernas e saudáveis: orar para que os homens no poder, ao acordar, não possam mais ver-se refletidos no espelho, ou então, se o fizerem, que se dêem conta de como são por trás da máscara da impáfia.


O teatro do silêncio

A Patologia não é o estudo dos patos, mas nas inúmeras províncias do País quase sempre é o resultado duma investigação que termina com o encontro da vítima que vai pagar o pato. Nascido no Chile da ditadura militar que derrubou Allende, o Teatro do Silêncio apresenta-se com a ousadia e a grandiosidade do teatro político que, ao aproveitar as melhores lições de Bertold Brecht e Helène Weigl, instala o espectador numa posição de desassossego e aflição, não pelo deslinde da peça, mas por saber que ela poderá terminar. O Teatro do Silêncio abre o apetite do espectador jejuno em dramaturgia para a beleza do teatro político. Em CTV, o teatro é espasmódico: na década de 50 ele era inocente e tímido, a ponto de o palco da Sociedade Italiana poder abrigá-lo sem que os atores se atropelassem na coxia. Com Paul Edward Fort, no Barão dos 60s, fizemos uma montagem tão competente de Morte e vida severina, que a peça pôde ser remontada com sucesso de público do TUCA/SP. De uns tempos para cá, com o esvaziamento do balão da Arte de permanência e sua substituição por indigestos acecipes de arte efêmera, o teatro local reduziu-se a exercícios corporais que, em razão do assanhamento dos moços e o modo como cada um lida com a própria sexualidade, migrou para o interior das casas dos pais ausentes onde desbundou. E, assim, de desbundamento em desbundamento, foi para a internete, o grande oceano de palavras e imagens da contemporaneidade. Ali, o sentido de exibição narcísica de moças e rapazes lembra a exposição descarada dos políticos de Brasília, flagrados há poucos por microcâmaras marotas que mostraram para o País e o mundo o melhor uso da cueca, bolsa e meia. Há também proximidade entre as cenas intimistas do teatro do silêncio de CTV e as que desapareceram com a CPU do Alpino. Outra semelhança entre o episódio da pedofilia e o teatro local é o inquistamento de produções patológicas na classe média local, sem grei, sem lei & sem rei.


A velha sabedoria das pessoas sensatas & os discursos oficiais

Quando mais jovem, e diante das bobagens emitidas com empáfia por pessoas que se tinham na conta de sábias, minha mãe costumava dizer:"Melhor do que ser surda é poder ouvir o que fulano acabou de dizer". Claro, ela não queria ser surda, mas, sim, poder ouvir e ouvir bem, ainda que as coisas ditas fossem asnices incomensuráveis. O desemprego ou sua vítima que Karl Marx denominou de lúmpen proletariat não é caso de polícia, mesmo porque, amanhã ou depois, o policial também estará na rua, chapéu à mão, para pedir ao passante um prato de comida. Também não adianta dizer que a moeda que você lhe deu será usada na compra de cachaça, porque você e ele bebem ou já beberam cachaça. Vamos lá, cínicos do mundo! Primeiro vocês inventaram a miséria, depois a piedade. Sabem por que? Porque vocês precisam de mão de obra barata para cuidar da sujeira da casa e da rua. Os empregos se constroem e se desconstroem, as cidades nascem e morrem. Gosta de passear por aí, sabe algum Inglês macarrônico?, então vá a Detroit, se é que você irá encontrar Detroit de pé: casas, ruas, parques, igreja, estação de trem, fábricas e mais fábricas de carro, pessoas, o sonho e o pesadelo, o medo e a coragem, tudo cobriu-se de mato e não sobrou grão ou naco para o rato. O que é que seu velho pai dizia de Detroit, do progresso e do automóvel? Vá a Detroit, sábia criatura, para certificar-se de que o capital muda de mãos, volatiza-se e o deixa na rua da amargura sem dó nem piedade. E não se esqueça de levar na bolsa o velho terço.A seguir, e para você pensar grande, mostro-lhe o ex-engenheiro Joshua Persky, pai de cinco filhos, desempregado, numa esquina de Nova York, no dia 24 de junho de 2008. Persky foi para a rua depois da última volatização dos bancos. Até aquele dia Joshua podia tomar banho, usar desodorante e falar no celular.


Digressões acerca de O idiota de Dostoiévski e outros subtemas paralelos

Na Galeria Uffizi, de Firenze/Florença, você poderá extasiar-se diante da Medusa, ou do Sacrifício de Isaac, dois quadros de Caravaggio. São fabulosos. O primeiro retrata tema bíblico no qual o pai de Isaac, ao provar absoluta fidelidade ao Demiurgo, proprõe-se a cometer filicídio, cujo ato não se consuma. A cena é dramática. O segundo quadro resgata a figura da górgona cujos fios de cabelo eram serpentes amedrontadoras. Perseu mandou gravar em seu escudo a figura de Medusa cujo olhar petrificava os adversários postados à sua frente. Até mesmo na política algo provinciana de CTV não faltam a figura do pai demiúrgico que o tempo todo reclama de seus pares sacrifícios e atos de fidelidade cheios de dor e humilhação, mas também a degola do adversário ou, como no episódio da mitologia grega, a transformação dos inimigos em pedra. Bobeou, vai para o patíbulo. Em Firenze, nasceram e viveram, dentre outros, Dante, Boccaccio, Botticelli, Machiavelli e Michelangelo que, felizmente, não precisaram freqüentar a biblioteca pública da Rua Maranhão nem o MIS da Avenida São Domingos. Em Firenze, entre 1867 e 1868, por quatro meses, Dostoiévski redigiu O idiota, inspirado no Dom Quixote de Cervantes. O idiota do grande escritor russo é um pouco como o idiotés dos gregos, quer dizer, um homem bom, porém singelo de quem muitos fazem chacota. O idiotés helênico, mais tarde, deu lugar ao filósofo, muitas vezes confundido com um lunático. O príncipe Míchkin, epilético, é o idiota de Dostoievski. Todo o seu conhecimento do mundo assenta-se no senso comum: vai chover, não vai chover, as coisas são assim e não assado porque o chefe falou etc. Na figura de Rogójin, Dostoievski criou o antagonista de Míchkin. Rogójin é bilioso, cruel, carrasco de seus pares. Na piada do mexicano, ele é o que pergunta ao adversário "Como te llamas? e, antes que o desgraçado responda, ele infla o peito, fulmina com um tiro o inimigo e diz "Llamavas!"Se vivesse hoje, Míchkin teria sido o autor da frase "Manda quem pode, obedece quem tem juízo". Não quer isso dizer, no entanto, que um dia Míchkin, ao acordar com a avó atrás do toco, não venha a botar a boca no trombone!Toda criatura, um dia, rebela-se contra o criador.


Secretário, chefe de gabinete & outras criaturas próximas do poder

Durante a campanha eleitoral de retorno à administração, José Antônio Borelli prometeu, no palanque e no Café da Esquina, que, se fosse reeleito, botaria abaixo a larga e pesada porta de madeira do prédio da prefeitura da Rua Pará esquina da Paraíba. Reeleito, Borelli cumpriu a promessa.O talhe anarquista de JAB era algo congenial ou de família: em Taquaritinga ele sentiu no aperto de mão os calos dos emigrantes meridionais. É fácil entender o sentido histriônico do compromisso: ele era a criatura simples que se sentia bem ao receber o povão de braços abertos, sem protocolo ou maneirismos. A massa o chamava de Nego, naquela acepção com que a mulata trata de meu nego o branco por quem se apaixonou. O povo quer sentir-se próximo do poder, ainda que isso seja, de fato, aspiração que não se cumpre na prática. Aliás, a respeito de povo, foram os italianos que inventaram o conceito de massa com Nicolau Macchiavelli. No tempo de Borelli, os secretários eram tão somente secretários, isto é, participantes da administração como auxiliares, sem qualquer significado extra. Não havia neles um plus ultra ou um surplus. Nos dias de sanha e fome de poder que correm, voltamos ao universo dramático de Shakespeare, em que as pessoas próximas e ao mesmo tempo um pouco distantes do poder real maquinam dia após dia para chegar lá, ou então , por bom tempo, são preparadas para a investidura assim que o rei coroado deixar o cargo, por morte, velhice ou insanidade. Stálin foi secretário do partido comunista e a função era indicativa de que o ocupante estava a um passo do poder. Por um triz Churchill não chegou lá. Alguns secretários são como os religiosos praticantes de caminhada que, do começo ao fim do dia, preparam-se para o supremo momento de investidura ou perda de suor . Churchill era anfíbio ou ciclotímico, ou então, quem sabe, um precoce portador de distúrbio bipolar: passava grande parte das manhãs deitado na cama, tomava vários banhos ao longo do dia, fumava um charuto atrás do outro e bebia várias doses de uísque. Quincy Adams, o norte-americano, não era mitomaníaco, mas um genial criador de projetos de interesse público. Churchill ficou famoso e, há uns 60 anos, não havia no mundo criança que não o reconhecesse pelo chapéu coco, o V da vitória ou o charuto. No entanto, foi ele responsável pelo estrondoso desastre de Gallipoli nos Dardanelos contra Ataturk, além de ter considerado a possibilidade de usar gás venenoso contra civis alemães. Ricardo Hummel, paredes meias com o Sr. Prefeito, talvez venha a ser lançado como sucessor da atual administração.Há cinco anos, ele exerce, de fato, as funções de chefe de gabinete e sabe tudo ou quase tudo do poder, a cidade & seus habitantes. Quieto, no mais das vezes, e perspicaz. Lembra, às vezes, um enxadrista de mente insondável. Ele e Winston Churchill tinham em comum o gosto por avião. Hummel jamais nos disse qual o seu entendimento de política, ao contrário do britânico que assim se exprimiu: “A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes”. Quanto às mortes, isto é coisa para um espírita tirar de letra.


Prosa caipira

Asturdia, u óme apiô dum turdio com cara de abestaiado. Raspô a bota imbarreada no limpapé de tampinha de garrafa, oiô mei de insgueio e adentrô. Pensei num fidumaégua lá de Vargim inguar a esse dito cujo. Fedia cachaça e a inhaca era de vomitá o armoço donti. Garrei a maginá que aí vinha forfé.Forfé é qui não farta nesse fimdimundu. O omão era parrudo e fui logo desembuchando: Tá quainahora de fechá o buteco e o mé acabô.Também não tenho mé pra disconhecidu fedorento. O zaroião nem triscô o zóio bão. Fiquei desenxavido e pensei: agora levo os corno pra véia conferi.A veia fica cum medo qui eu leve sova de valentão Disse: abanque-se, seu ome sem nome nem sobrenome. Ficô ele de coqui um tempão, caiu aguacero desses que o pai chamava de dilunvo, porca grunhiu no terrero e a véia veio de mansinho, aventar na mão calosa e berrô bem arto, pruquê to surdo como porta: Juanim, quiqui si passa? Arrespondi: chegô esse parrudo, mas não sei quiqué, não tugiu nem mugiu, ficô inguar passarinho na muda. Aí o grandão tamanho de cumiera se alevantô, botô a mãozona na cartuchera e desembestô: eu só quero a sua fia Zurmira de zóio melado e boca grande. Muierão cheia de prenda e encanto. Não vou maiá meu sobro antis do ajuntamento.Eu e a véia trememo como vara verde, mijei na carça de brim amarelo, a véia encoieuce tudinha atrais do barcão, começou a rezá o crendospadre e eu me fiz de tonto: cuméquié, seu ome? Quero sua fia, seo carniça, a Zurmirinha, luz na treva que deixa lamparina acesa na rabera. Chispa, arrisquei. Num sarto de onça pintada, ele grudô meu pescoço, ergueu mão peluda no dorso, mas Zurmira gritô:deixa o pai, Vardomiro.Mió si entendê com o pai. Antisdonte pensei em vancê e logo botei na oreia uns pingo do perfume que você ganhô na quermessa. A fia tá de chico, gritô a mãe.Isso passa, tudo passa, só o meu benquerê por essa muié é qui não passa. Oncotava quando bebi até caí nas ribancera só pensando nocê? Botei de doido a cabeça com chapéu e tudo denduforno pra curá o mar de pinga, saí locão e fui campiá mula-sem-cabeça no pasto longe.Vortei zambeta quatruhora dispois. Já si lavô, Zurmira?Bota a saia rendada.Arruma os pano e vamo pra casa. O chico passa e nóis vai fazê fiarada de lotá pondiônus na vila.Vixe! Uns oito. Compro carro de boi novinho infoia pra passiá os mininu. Vão crescê sadio e catiça arguma vai pegá nelis. O mundo só tem começo, nem tem nem fim. O mundo fica treis tiro de cartuchera dispois da casa de nhô Raymundo com ipsilone que sabe lê e inscrevê.

[Dedico esta narrativa meio singela à memória de meu primo Ado Benatti, poeta da musa cabocla nos anos 50s e 60s. Ado não era um caipira autêntico. Homem de cidade, no entanto, soube trabalhar à maneira caipira temas como o ciúme que, sem dúvida, estão presentes tanto na zona rural quanto na cidade.]


Catanduva e os novos enciclopedistas

Em 2004, Alanis Morissette recebeu o Juno awards, versão canadense do Grammy. Anunciado seu nome, ela ficou pelada. Nessas circunstâncias, a nudez é pura ironia e Ironic/Irônico é título duma das músicas da cantora canadense. Diz a letra: “Mr. Play it safe was afraid to fly/He packed his suitcase and kissed his kids good-bye/he waited his whole damn life to take that flight/and was the plane crashed down he thought/”Well, isn’t this nice.”/ and isn’t it ironic … don’t you think? Em Português: O sr. Precavido tinha medo de voar/ele arrumou a mala e deu um beijo de despedida nos filhos/Esperou a vida toda para fazer aquele vôo/ e, enquanto o avião caía, ele pensou/”Bem, isso não é bom ...”/Isso é irônico ... Você não acha? O destino, ou seja o que for, escreveu para a criatura o mais indesejado dos finais. Ele não pôde evitar o trágico deslinde por ter acalentado a vida toda fazê-lo. Do mesmo modo que o Destino aprontou com a personagem de Alanis Morissette, o dia-a-dia de Affonso Macchione tem sido marcado por aquilo que ele não acalentou, quer dizer, que lhe respondam, com ironia, aos seus bons propósitos, já que ir para a prefeitura foi o que ele mais desejou na vida, nos últimos tempos. Fui professor de Língua portuguesa e Literatura do Sr. Prefeito, lecionei para os seus três filhos e para os filhos de seus irmãos, trabalhei na Coordenadoria de Cultura por dois anos, assim como minha mulher, por três anos e meio, dirigiu o postão da Rua Pará, além de ter cuidado dos serviços médicos no trato de tuberculosos e hansenianos. Os colegas que comigo se compuseram e os 13 mil visitantes das mostras sobre a velha Catanduva, assim como o corpo auxiliar do postão e as pessoas que por ali passaram, sabem que nosso desempenho foi exemplar. No entanto, estamos fora do barco que segue em frente porque esse é seu destino. O postão, reformado e pintado, descaracterizou-se por completo e, em vez de continuar sendo o nosso HC, virou campo de exercício da incerta medicina terceirizada, enquanto que a Estação cultura continua a confundir adestramento para habilitações artísticas, ou estratégias de sobrevivência doméstica, com Cultura, que implica numa reeducação dos sentidos. Tão logo instalou-se na prefeitura, em 2005, Macchione foi ironicamente presenteado com um blog maroto intitulado “Eu odeio Affonso Macchione” e, há pouco, no vastíssimo oceano da web, com um artigo sobre a cidade na Desciclopédia. O artigo apresenta-se com altos e baixos e, nos melhores momentos, desnuda a cidade exibindo-a como a contrafação do que gostaríamos que fosse. A Desciclopédia é a antítese da fabulosa Enciclopédia dos franceses revolucionários de 1789, cujos verbetes, críticos e informativos, preparavam os franceses para o momento em que o mundo seria posto de ponta cabeça. O verbete Catanduva da Desciclopédia é o mundo irônico de ponta cabeça, já que, do jeito que as coisas vão, nada carece de mudança.


Prezado Arthur,

Como passei dos 18 e me iniciei em jornal há décadas, para mim jornal significou sempre papel, tinta, informação, crítica e entretenimento. Quando trabalhei nO Estadão da Major Quedinho deixava a sala dos revisores com as mãos sujas de tinta. Um dia, bem moço, fui para o RJ para trabalhar no Correio da Manhã. A ditadura instalou-se no poder, a condessa proprietária do jornal exilou-se na Europa e eu fiquei a ver navios. O cheiro de tinta continuava impregnado nas narinas. Em São José do Rio Pardo, conheci o velho Paschoal Artese, socialista amigo de Euclides da Cunha e editor do Jornal do Poste. Ele era a redação, o repórter, o ilustrador e tudo o mais que a ocasião exigisse. Ficava de ouvido colado a um velho rádio e, quando o fato quente era anunciado, ele o ouvia, ia para a Remington e encomendava a um menino que saísse pela cidade para colar nos postes de madeira a folha de jornal.Passandoalimpo não tem cheiro de tinta,mas de veracidade, coragem, bom gosto e faro para distinguir o fato político da fofoca anódina. Nesta idade senescente em que me encontro, sinto-me alegre e rejuvenescido por fazer parte dessa fabulosa equipe de brancaleones que insistem em ver no poder local aquilo que ele não pôde dar.


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